Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

quinta-feira, fevereiro 28, 2002

Quase

Sempre eles, Teenage Fanclub... Tudo de mais inusitado que acontece com Aline tem esta banda como trilha sonora! Claro, não é sempre que toca Teenage que bizarrices surgem - mas quando elas aparecem, *invariavelmente* está tocando Teenage.

Aline já perdeu a conta das coisas que testemunhou ao som da banda. Fins e começos de namoro, pessoas certinhas perdendo a noção, fulaninha-dando-em-cima-de-beltraninho-e-beltraninho-de-olho-na-sicraninha, tocos memoráveis... até descontrole da Claudinha ela já viu (e sentiu na pele).
Mas agora...

Estava tocando "Star Sign". Aline dançava animadamente com Pedro no seu lugar de sempre, atrás das caixas de som. Era uma raridade tocar este tipo de música ali, então dançar ao som dela tinha um gostinho ainda mais especial. Ela ria da homenagem feita ao amigo, tinha certeza de que tal música sendo tocada *ali*, logo que chegaram, não havia sido mera coincidência. Assim como o resto do povo, o DJ era amigo de Pedro. Há mais de meio ano ele não pisava nesta pista de dança por causa dela, Claudete. Sua volta merecia ser comemorada em alto estilo!!

- Como sempre, Teenage Fanclub marcando a minha vida! -, berra contente no ouvido de Aline.

Aline sorri para o amigo e continua dançando. Chama-lhe a atenção um grupinho de 3 ou 4 meninas pulando como loucas no palquinho. É estranho, afinal Teenage Fanclub não costuma arrancar ataques histéricos em boate. Pedro também ficou olhando, intrigado. Como era o iniciozinho da música, logo elas notariam que não era "aquele hit daquela banda" e ficariam mais calminhas.

E, de fato, elas se acalmaram - por 23 segundos. De repente começou uma berraria, as meninas gritavam gritavam e gritavam! Que coisa esquisita... Aline e Pedro até pararam de dançar para ver o que acontecera. Elas olhavam para a frente, pulando e se descabelando. Parecia que alguém havia chegado... alguma celebridade, quem sabe?

Pedro indaga:
- Quem será que chegou por aqui? O "Paulo Ricardo"?? [em tom de deboche]
- Sei lá! - Aline ri, enquanto fica na ponta dos pés tentando alcançar a mesma visão das mocinhas afoitas. Será que são amigas da Claudete??
- Não né, boba! Elas estariam olhando para mim, e não para lá!
- Não senhor! Vai ver é a louca que tá entrando...
- Nah! Improvável... mas em todo caso...

Pedro começa a "procurar" também, assim como a imensa maioria das pessoas que estão ali presenciando a gritaria. Aline logo se distrai, afinal estava segura de que só podia ser a Claudinha - ou alguma outra menina louca atrás do ex-namorado...

Virada de costas para onde todas elas olhavam e gritavam, de repente Aline sente alguém segurando-a pela cintura. Léo? Fernando?

Não!!!!
RODRIGO!??!?!
O que diabos ele tá fazendo aqui?!?!?!???
Ele DETESTA esse tipo de som!

Aline não fica nem um pouco contente em ver o seu namorado ali dentro. E muito menos quando descobre que o motivo daquela gritaria toda era justamente ELE! Vê a mulherada de olho compriiiido olhando os dois e sente tamanho ódio, que é capaz de mandar todo mundo ali descer da porra do palquinho - e JOGÁ-LO em cima delas!

Ela respira, conta até 2.349...
Mas não fala nada. Fica olhando aquelas meninas pelo ombro de Rodrigo, que a abraça e beija, alegre, sorridente. Bem aquela cara de 'namorado-radiante-ao-fazer-uma-surpresinha-para-a-namorada'. Aline sempre teve a teoria de que tal atitude deve ser seguida por uma cara de 'namorada-pasma-e-realmente-surpresa-de-uma-forma-que-o-namorado-NÃO-esperava'. Porra!! Essas coisas NÃO SE FAZEM! "Quer fazer uma surpresinha?? Tenha MUITO cuidado, pois quem pode ter uma supresa é você!", é o que ela sempre aconselha aos amigos que surtam com babaquices românticas do gênero. Então é óbvio que Aline não estava satisfeita.

- Ô Rodrigo! O que deu em você???
- Não agüentei só te ver por meia hora, depois de tanto tempo longe. Aí eu resolvi fazer uma surpresa...
- Isso eu sei. Mas nunca te falei que acho isso errado - e perigoso?? Às vezes a surpresa fica pra você...

Rodrigo engole seco:
- Eu sei. Por isso cheguei cedo.
- Hum.

Aline não demonstra, mas adorou a resposta. Rodrigo sabe.
- Então é isso que rola aqui toda semana? Como é possível alguém dançar com uma música dessas? [entrelaçando suas mãos às de Aline]
- Muito fácil, olha lá o Pedro...
- [Rodrigo acena para Pedro, que retorna o cumprimento] Vocês são doidos...

As meninas continuam se mexendo, indóceis. Aline quase rosna. Rodrigo ri:
- Ahh, então é isso??
- Humpf.
- Mas elas não são nada...
- Humpf.
- Eu nem teria visto se não fosse a sua cara.
- Humpf.
- Você fica muito linda assim, meu.
- Humpf.
- Você nunca vai deixar de se importar com elas?

Aline faz uma careta indescritível e Rodrigo fica metade assustado, metade excitado. Sim, o comportamento bizarro de Aline diante da sua fama era algo que mexia com sua(s) cabeça(s). (Seria este um dos motivos que o fez arriscar tal "surpresa", mesmo sabendo do estrago que poderia causar?)

- Você vem comigo procurar um sonzinho eletrônico? Só por alguns minutos, que tal? Hmm? [murmurando baixinho no ouvido de Aline e beijando seu pescoço]
- Grunf. [arrepiada, caminhando com Rodrigo até o corredor]Tá. Mas ó.[encostando-o na parede em frente ao bar]
- Já sei, já sei. Surpresas nunca mais. Pelo menos não quando existirem meninas histéricas ao redor.
- Isso.
- Mas hoje deu vontade, eu vi você se aprontando tão linda, e...
- Entrasse comigo e com o Pedro, ué.
- Você não deixaria.
- Verdade. [sorri]
- Se eu fizesse só o que você quer - e vice-versa, porque eu sei que você não faz só o que eu quero, muito pelo contrário - não íamos dar certo.
- Também acho. [pausa] Por isso que eu te amo.

Rodrigo fica até paralisado com a declaração que veio do nada, no meio de um diálogo nada romântico.
E ela continua:
- Você sempre faz essas coisas que eu detesto de uma forma tão foda... que nem dá pra brigar. Bem que eu tentei, mas a sua frase, putz... foi o que me fez não brigar com você.
- "Por isso cheguei cedo."
- Exatamente! Qualquer outro argumento me deixaria furiosa.
- Eu sei. [sorri]
- Porque com ele você assume que sabe a merda que ia dar.
- Assumo.
- Eu poderia estar ficando com outro cara.
- Eu sei.
- E você poderia ver.
- Eu sei. "Por isso cheguei cedo".
- [sorri, metade meiga, metade cruel]Então você tem noção de que eu terminaria tudo.
- Tenho.
- Por invasão de privacidade e desprezo pela minha liberdade de ir e vir sem ninguém vigiando.
- Eu sei.
- Detesto que me policiem.
- Eu sei.
- E eu posso estar me sentindo assim com sua atitude.
- Eu sei.
- Da próxima vez avise, nem que seja um 'talveeez eu passe lá...'
- Tá bem.
- Eu podia estar te dando um fora neste exato segundo.
- Eu sei.
- E por justa causa!
- Eu sei.
- Você estava com noção disso tudo quando pisou aqui dentro!
- Estava.
- Mas mesmo assim você arriscou.
- Arrisquei.

Aline reflete por alguns segundos, num silêncio sepulcral. Rodrigo não tira os olhos dela. Ela encosta na parede, ao lado dele, e o puxa pela gola da camisa. Os dois se beijam, se abraçam, "fazem as pazes" (?) e então se dirigem à outra pista. Até chegar lá, Aline exercita seu poder de abstração inaugurado na festa do Pedro: não olha para o rosto de ninguém e cantarola para si "Pride (In the Name of Love)".

Rodrigo tem consciência do risco que corre desde quando reatou o namoro com Aline. E é por causa disso que seu comportamento ali está sendo milimetricamente calculado. Qualquer deslize seu, por menor que seja, pode pôr tudo a perder, just like before. Já foi uma grande vitória tê-la de volta sem que para isso tivesse que largar o "emprego"... o resto é lucro.

Mas ele só quis ver a sua namorada, estava com saudades depois de tanto tempo longe... daqui a pouco vai embora, ele jura... Aline consente e fica com ele por alguns minutos na pista eletrônica - e o leva até a porta, just to make sure. Coça a cabeça, acena um tchauzinho discreto e embaraçado enquanto Rodrigo suspira, feliz por estar saindo de lá ainda com o namoro "de pé". Ela ri, fazendo 'não' com a cabeça, dá meia volta e retorna à pista de rock como se nada tivesse acontecido.
E, realmente, nada aconteceu hoje - mas sabe-se lá até quando isso dura.

Não há dúvidas quanto a isso: por um triz Aline não chuta o balde. Ter sua liberdade invadida assim... humm. Mas relevou. "Por isso cheguei cedo". "Por isso cheguei cedo". Foi uma bela tirada, essa do seu namorado, daquelas que dão orgulho, por denotar tão bem como ele a conhece.
Porque percebeu uma certa ingenuidade no comportamento de Rodrigo, resolveu deixar as coisas como estão.
Ela só não sabe se isso foi bom ou ruim...