Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

terça-feira, novembro 06, 2001

Ontem

Aline permanecia olhando o teto da loja onde trabalha. Com um tremendo sono devido à noitada do dia anterior, ela mal piscava (se piscasse, com certeza não teria forças para abrir os olhos novamente).

Pensava em ontem. Em como a noite valeu por causa de um único gesto, uma única atitude. Ficava pensando em como a vida é irônica. Enquanto todos saem à caça, e só se dão por satisfeitos quando conseguem pelo menos um beijo na boca, ela permaneceu quieta, só usufruindo daquela festa diferente.

Aline, como se sabe, não é lá muito comportada. Sempre teve ímpetos "galináceos", mas nunca fez disso uma dependência para sua noite ser boa. Tanto que ontem...

Ontem ela não precisou beijar. Não quis ficar com ninguém. Flertou com vários, é verdade... mas não beijou ninguém. Estava se divertindo e se sentindo uns 8 anos mais nova. Seus babados "repetidos" estavam lá. Um cabeludo estranho, Gustavo, Fernando... Mas ela não estava afim de nada. Só de se divertir, de estar sozinha com os amigos!! Ahh, como ela precisava disso. A última vez lá dentro tinha sido sufocante, Léo apareceu e aí já viu... Aline queria estar sozinha, solta. Tinha se esquecido de como era...

Pior foi Ana teimando que mais cedo ou mais tarde Aline ficaria com Fernando...haha!

Fernando... Fernando é uma coisa inacreditável. Estava bêbado como Line nunca tinha visto. Conversaram as coisas mais bizarras e sem sentido, Aline rindo que se acabava. Fernando estava com aquela carinha-de-pateta-tropeçando-no-degrau que, Aline detesta confessar, tem um certo charme. Talvez fosse o jeito cuidadoso com o qual tratava Line... Seria diferente? O que diabos havia em Fernando que deixava Aline sempre paciente com ele?

Ela não conseguiu achar a resposta, nem na hora nem agora, olhando pro teto. Mas abriu um discreto sorriso, como se lá em cima algo lhe fizesse graça. E o sorriso foi aumentando, aumentando - lembrou-se das pequeníssimas coisas que aconteceram ontem. Os pequenos gestos, os micro-acontecimentos ao seu redor... Já estaria satisfeita com sua noite se só tivesse participado disto. Mas não; ainda teve o Fernando.

Ainda teve o Fernando, muito muito muito bêbado, vindo abraçá-la. Em plena pista de dança, ao som de sua banda favorita. Contando uma história totalmente absurda, sem nexo algum MESMO, que nem de longe cheirava a pretexto ou "flerte". E abraçando-a de novo. De novo e de novo. Ficando assim por muuuuito tempo. Aline geralmente é vítima de tais atitudes sempre que determinada pessoa sente a necessidade de 'demarcar território' com ela. Mas ela, que sempre estranhou o fato de Fernando conhecê-la bem demais, de repente se pegou conhecendo-o bem demais. Sabia que ele não estava agindo assim *naquele momento* para "mijar em volta". Estava bêbado demais para isso.

Mas aqueles abraços todos a comoveram. Pelo simples fato de que, bêbada, a pessoa faz coisas que 'sobriamente' não teria coragem.

Durante esse tempo todo de re-la-cio-na-men-to, Line e Fernando só se abraçaram uma vez. Uma única vezinha, e foi bem estranho. Aline não se sentiu nada bem na época - foi uma tentativa esquisita de 'compromisso', brrrr!!!

Estes abraços bêbados, contudo... Aline não recusou, Aline não repeliu, Aline não estranhou. E está a pensar nisso agora, olhando pro teto. Como uma pessoa pateticamente bêbada pode fazer coisas tão delicadas? Como pôde tocar Line tão lá no fundo?

E ela nunca vai se esquecer da cena: Fernando, no último dos abraços, mal queria (conseguia?) largá-la, parecia que necessitava daquilo so, so badly, que poderia ficar assim por horas. Aline riu e afastou-o com um jeito meigo até então inédito pra ele: ficou acariciando seu rosto, com carinho. Entre pessoas se sacudindo e luzes estrobo num pisca-pisca que cegava qualquer um, Aline conseguia ver um fiapo de Fernando à sua frente. Viu seu sorriso, viu sua cara com um "VALEU!" estampado na testa. Os dois dançavam, sorriam, tão tão cúmplices, tão tão íntimos.

Aparentemente o único chocado com qualquer coisa ali era o Gustavo. But what the hell...?
E daí?

O-oh. Quando esta perguntinha ecoa na mente de Aline, ela se dá conta da gravidade do assunto e quase se desequilibra na cadeira. BUM!, arrepio e tanto na espinha!! Parece que o seu amigo teto havia derrubado uma bigorna nela.

Será...?? Será-será-será??
Será que Aline e Fernando chegaram ontem a um nível tão superior assim de... de...relacionamento a ponto de independerem de uma ficada??????? A ponto de... serem companheiros um do outro e o resto de se foda????? Não-não-não-não-não.... Não pode! Não pode não pode não pode!

AMIZADE COLORIDA????
Aline entra em pânico.