Amor colorido
- Ahh, o Renato...
- Renato!
- Renato, ÓBVIO!
- Dããã... o Renato!!
Essas são respostas-padrão que Aline costuma dar ao ser indagada sobre sua preferência masculina. Renato, Renato, Renato. Sempre Renato.
Renato é seu orgulho número 1. Renato é lindo, lindo, lindo. Inteligente, charmoso, tranqüilo, paulista e tem uma banda. Perfeição pura, Renato foi a sorte grande de Aline.
Como se estivesse numa loteria, ela não sabe porque foi a escolhida. É agradecida por ter sido sorteada e responsabiliza tão-somente o acaso.
Essa é uma das coisas engraçadas da Internet: o acaso surge mais impressionante do que qualquer outra coisa na "vida real", como conhecer alguém num barzinho por exemplo. Isso é tão pífio se comparado ao virtual...
Não só porque abrange mais localidades (de qualquer lugar do mundo você pode acessar um chat), mas também porque envolve apenas contato verbal. Quais são as possibilidades de se estar "teclando" com um cara que personifica tudo o que se mais deseja fisicamente num homem?? Ainda mais num tempo onde poucos se assumiam nerds?
Aline tirou a sorte grande, e não só por ter conhecido alguém assim - mas por ter sido muito desejada justamente por alguém assim. O Renato era mais do que qualquer ambição sentimental que ela podia ter. Um cara desse nunca ia querer nada com ela, ever! Esse é o tipo de homem que, no máximo, jaz pendurado na parede do seu quarto num pôster de rockstar. O Renato *é* um rockstar.
Mas a vida é irônica - e em se tratando de Aline, põe ironia nisso -; e mesmo com essa pompa toda Renato teve que dividi-la com a mais improvável das criaturas. E ser o outro. Se ele é tão lindo e maravilhoso e "tudo na vida", etc. etc. etc., como ele teve ainda que concorrer - e "perder" o primeiro posto para um zé-das-couves qualquer? "Ahh, os mistérios do amor", sussurraria Carol. Mistério nada! Esta é a sina de Aline: viver ao revés das coisas que seriam "mais normais".
Por que teve que conhecer Caio primeiro, e não Renato?
Por que o primeiro namoro foi logo com um jogador de futebol?
Por que seus amigos SEMPRE acabam por fazer merda com ela?
Por que ela tem que gostar tanto de um cara como o Daniel?
Ahh, enfim... POR QUE DIABOS ELA IDOLATRA O RENATO??
Na verdade, ele não é tudo isso que Aline faz crer. "I'm just a normal, regular guy", Renato costuma dizer, sem falsa modéstia. Até porque ele é normal. Não há menina vidrada, louca, alucinada assim por esse estiloso garoto; só Aline. Que lástima! O mundo estaria perdido como ela acha? Ou os dois têm algo que é indefinível em palavras?
Essa afeição toda a alguém como o Renato não tem nada a ver com a suposta beleza dele. Os dois se conheceram "às cegas", e só depois de muuuito tempo é que ela ganhou uma foto dele. Já estava envolvida antes disso. Ambos já estavam envolvidos. E envolvidos em algo muito bonito: um amor que não é desses explosivos, nem somente fraternal; uma cumplicidade não de amigo, mas de interesses comuns que os unia; uma felicidade não por se descobrirem "almas gêmeas", e sim por se curtirem na medida certa - e sinceramente.
Renato podia não ser espontâneo como Aline - mas ah, como era sincero. Se ela nunca esquece daquele dia do metrô, ele com certeza também não esquece. E ainda tem guardado o cartão de aniversário mais foda que já recebeu.
Aline é tão encantada com ele que nem percebe o quanto a recíproca sempre foi verdadeira. (e por isso nunca se sentiu segura)
Renato é outro: sempre inseguro pela sombra de Caio, deixou muito a desejar no âmbito "demonstração de afeto". (e nem percebe o deslumbre de Aline)
Ahh, que coisa... feitos um para o outro, mas... desfeitos por eles próprios. O tempo pode passar o quanto quiser que nada parece desempacá-los. Então eles ficam assim assim, "até tomarem vergonha na cara e montarem família", cisma a sempre bufante e amiga Carol.

<< Home