Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

quarta-feira, dezembro 05, 2001

Ele (1)

Aline se dirigia calmamente para o banco numa manhã dessas de calor pré-verão. Acabava de sair de casa, de óculos escuros, "sonada" como diria um querido amigo. Olhava distraidamente para a calçada, às vezes para as árvores... Sabe-se lá por onde vagava o seu pensamento - provavelmente estava muito distante dali, a ponto dela se assustar ao ouvir seu nome berrado:
- Aline!

Em micromilionésimos de segundo, antes de virar, Aline estranha: uma voz de homem, e que não era a de seu pai, nem do porteiro, na sua rua, a 10 metros de casa??? Ela não conhece nenhum vizinho...bom, pelo menos nenhum vizinho com uma voz carregada e diferente como esta que ouviu. Essa voz, essa voz...humm..?

E então virou. Virou e quase caiu dura no meio da rua, de tamanha síncope histérica. Era ele. ELE!!!! Rodrigo. "Meudeus meudeus meudeus, eu-sabia-que-isso-alguma-hora-ia-acontecer-eu-sabia-eu-sabia-eu-sabia-socorro-o-que-é-que-eu-faço-agora-calma-respira-Aline" era o que estava sendo quase gritado por ela. COMO DIABOS ELE TEM A CAPACIDADE INSANA DE APARECER AQUI???? Aline o queria tão distante... E ELE VEM "TRABALHAR" NO MESMO BAIRRO, A DUAS RUAS DALI!!!

Que desespero, que desespero... Aline não conseguia andar, sentiu seu corpo todo tremer (é assim que todos ficam ao verem seu primeiro amor?) e quase chorou.

Ok, Aline sabia que ele estava "trabalhando" ali por perto (tanto que evitava ao máximo pisar no que ela chama de ponto de ônibus maldito), Aline sabia que portanto ele estava tendo que morar na cidade (tanto que sempre que vai ao shopping, a trabalho ou não, fica a olhar para os lados, constantemente) mas o que ela *não* sabia é que ele aproveitaria isso para desenterrar suas cartas antigas e procurá-la no mesmo endereço... DE SETE ANOS ATRÁS!!!

É de chorar... quando ela pensa nessa história toda e lembra do e-mail que Vivi mandou há uns 6 meses avisando da "mudança de trabalho" dele, ela sente vontade de chorar... "É ele... é ele..."

Agora, na rua, Aline não ia chorar. Começou a andar mais rápido, como se não tivesse sido com ela. Mas não adiantou, ele já tinha a reconhecido e esboçava aquele sorriso maravilhoso. Aline tremia, e já pensava onde diabos ela ia arranjar um lenço... Teria algum na bolsa? Não, talvez não, ela não estava resfriada, e odeia lenços de papel, então como---

- Hei, Aline...! Hei... [tocando no ombro dela]
- Hã, é, hã? Hã, ah... [tosse tensa, voz engasgada, o desastre completo foi salvo pelos óculos escuros] Cof!
- Imaginei que você ainda morasse aqui... [sorriso assassino]
- ...
- Acredita que eu demorei pra encontrar? Mas não tinha noção de como era tão perto do Fl... [sorri, silêncio respeitoso à dor dela. Irônico da parte dele, pensaria Aline]
- Cof! Cof! [ataque de tosse 100% psicossomático] O que você... tá fazendo aqui falando comigo??
- Ah, eu... eu vim te ver.
- Pra quê? Não vou falar com você em público.
- Aline... [ele a segura pelo braço, fazendo-a parar]

Aline se vira, os olhos tremiam ao tentar encarar os dele. Why, oh, why??? Por que quando você acha que está tudo certo na sua vida SEMPRE ressurge um das tumbas??? Muito certamente ela nunca teria sentido seu coração disparar tanto como agora... Se bem que quando o conheceu também foi assim... não, não... aquele dia que ela descobriu *a* "tragédia" também foi pesado... e aquela vez do casamento?? Brrr!! Ahh, e não podemos esquecer do dia seguinte à notícia dada por Vivi... São tantos os dias, tantos os tremeliques dela perto dele, que Aline só chega a uma conclusão: se desta vez o coração está ultra-disparado, é porque na próxima vai ser pior.... Hã!

- Rodrigo... por favor... [dor]
- É sério, Aline. É sério. Foi difícil te achar, tão difícil ver você...

Aline suspira e meio que ri da ironia:
- Em compensação a recíproca *não* é verdadeira.

Ele entende a indireta, coça a nuca, sorri matadoramente de volta:
- Ainda bem.

Cretino. Desgraçado. E lindo, lindo. Rodrigo devia ser o cara mais charmoso a ter passado pela vida de Aline. E ela foi tão louca por ele... tão louca que o jogou fora, sem cerimônias. "Não, calma, Aline, não se arrependa agora, do it later...vamos lá..."

Ele continua.
- Mas então... que bom que eu te vi. [sorriso dilacerante] Você tá tão bonita. Cada vez mais bonita, sempre que eu te vejo.
- Claro, não sou mais a adolescente desajeitada e quatro olhos que você conheceu... [ri, visivelmente tensa]
- O quê? Line-Boba. [sorriso que quase faz Aline chorar]
- Rodrigo... Pára.
- O quê?
- Eu... eu vou chorar. [ela ri e sente sua voz sumir]
- Por quê?? Não chora.
- Então pára.

Aline respira, Rodrigo está parado na sua frente olhando-a fixamente. (Como esse garoto gosta dela...) Ela olha para ele, vê o menino pelo qual se apaixonou, e doeu nela ver que aquele primeiro olhar que trocaram depois do primeiro beijo ainda está ali, nele. Que merda. Ela sorri pra ele, vê que daqui a 3 segundos vai perder o salto e chorar, mas...
- Você ainda está igualzinho... [olhos marejados] você ainda está com aquela cara.
- Haha, nããh... nem um pouquinho diferente, tem certeza? [num sotaque paulistano de arrepiar]
- ... [sorrindo e fazendo que 'sim' com a cabeça e prendendo o choro]
- Bondade sua...
- Não, tipo, veja bem...
[ela funga e engole o princípio de choro emocionado - por quanto tempo ela vai conseguir é um mistério...]
se não pelo princípio de barba, ainda te daria uns 19...
[riso mútuo]
- É né... ihh, é, você não gosta muito de barba por fazer né?
- Hã?! [assustada] Como você sabe?
- Ué... você não tinha me contado??
- Não!! Nunca!! Eu só descobri que sou alérgica ANOS depois de ter te conhecido...! Nunca te contei...
- Engraçado... tinha essa sensação...

Rodrigo sempre foi de ter "essa sensação" de inúmeras coisas com Aline. Incrível. Ele adivinhava zilhões de coisas sobre ela, e da forma mais natural possível. Desde a banda favorita até agora, a "barba". Weeeeird...

- Mas Rodrigo... pára, péra. Não vamos nos distrair. O que você veio fazer aqui?? [séria]
- Ver você, já disse. Era algo que eu já queria fazer há um certo tempo. Você sabe que eu poderia ter ido pra qualquer outro ti... "lugar"? Recebi muitas propostas de trabalho, mas eu escolhi aqui. Perto de você. [ele se aproxima de Aline] Eu sou teimoso, não adianta, Line... [ele ri] A gente tem que ficar junto, mas me escuta. [já prevendo a manifestação dela, ele segura seus ombros, mexe em seu rosto] Escuta, Line. Não vou forçar nada. [Aline não fala, mas faz uma cara de deboche, incrédula] Line, é sério, me escuta... Escuta. Line. Eu não vou fazer que nem da outra vez... quero recomeçar do zero, agora pra valer, com você. Aquela vez foi do nada, eu não tive o menor respeito e...
- Ha, e *agora* não tá sendo do nada??? [sarcástica]
- Não, não está. Eu vim pra cá por sua causa. Escuta. O auê daquela época acabou.
- Isso nunca acaba, Rodrigo.
- Acaba, acaba.
- Ahh, acaba? AHÃ!!!
- Aline... puxa, Line. Puxa vida...
- A gente pode discutir isso a vida inteira, você me conhece.
- E você também me conhece. Você também me conhece, Aline. E você sabe que eu não ia brincar com a minha carreira assim à toa. Não por qualquer coisa. E foi por você. Foi por você que eu decidi vir pra cá. Foi por ter certeza absoluta de que eu estaria fazendo a coisa certa. E dessa vez não vou atropelar os fatos. Não quero atrapalhar em nada a sua vida, muito pelo contrário. E eu sei que vai dar certo agora. Você vai ver. Ninguém me falou que ia ser fácil. A gente vai aos poucos, não tenho mais pressa. Mas...[sorri enquanto segura as mãos dela, olhando-a nos olhos] É você, Line. É você. Sorry.

Continua?