Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

sexta-feira, dezembro 07, 2001

Ele (3)

Chegou a hora. This is it.

- E então...?

Aline hesitava. Tudo estava muito lindo e comovente até agora. Mas era só um passeio na rua!! Não dava para acreditar que ia ser "maravilhoso" assim. E o pé no chão, cadê?

Em contrapartida... Aline se perguntava um inédito "E daí??". E daí? E daí que ele era...aham... "conhecido" das pessoas? E daí? Fazer o quê se a "profissão" dele é essa coisa maldita?? Ele não é diferente?? Ele não está diferente?? Então, e daí?? Se Aline conseguisse responder isso com o mínimo de embasamento (como antes), pronto, ela estava livre. Mas... nada da resposta! Damn it, não dá mais para pensar como há sete anos! Ela já nem lembra direito como era ter 16... Sua realidade agora é tão outra, tão menos encanada com qualquer coisa que seja, que neste exato momento ela não consegue pensar numa resposta convincente (a ela mesma!) para o tal "E daí??"

Depois do Caio, tudo virou "e daí??"...

- Ai, Rodrigo...que dor... pra quê você quer que eu vá lá??
- Porque eu não quero que isso se transforme em uma coisa difícil entre a gente. Não quero que isso "emperre" o resto, entende?

Aline não parece muito convencida. Acha que assim que pisar lá vai ver coisas que não quer, ficar irritada, se estressar...
- I'm not so sure...
- Line. Escuta. Eu estou te falando que não vai ter problema algum. É por isso que eu quero te levar lá. Pra você ver que agora é tudo diferente. Que, [ênfase no tom de voz] por mais que você discorde, essa *é* uma profissão como outra qualquer. Você vai ver.

Quietíssima, Aline fica olhando pra ele, morrendo de medo de ir. Até que murmura:
- What the hell... por quê não? [sorriso tenso] Mas eu tenho que ir no banco antes!

Rodrigo não cabe em si de felicidade. Segura na mão de Aline, dedos entrelaçados que viram um tímido abraço, logo separado por Aline, meio nervosa.
- Tô meio tensa...liga não.
- Então eu só seguro a sua mão. [sorriso, olhos brilhando]
- Tá. [ela sorri de volta]

Com a outra mão, Rodrigo acaricia o rosto de Aline, puxando-a para mais perto:
- Igual a você não tem, Line.

Estalinho. Deve ter sido o 'beijinho' mais longo que já deram, ficaram assim por um bom tempo, até Aline sentir que uma lágrima ia começar escorrer por seu rosto.
- Ai... [ela meio que ri, enquanto ele a abraça]
- Line Line Line... você sabe o quanto eu sou louco por você?

Soa irônico, mas agora Aline não sente mais os pés no chão. E voltam a se beijar.

De repente, uma agitação no jornaleiro a faz desviar o olhar para atrás de Rodrigo. Eram duas pessoas (uma mulher e um homem) que, ao serem vistas por ela, saem correndo por entre os carros ali estacionados e atravessam a rua. Eles param e continuam olhando para ela de longe, meio intrigados, talvez esperando o sinal fechar novamente. Aline não entende nada - até ver uma máquina fotográfica daquelas de jornalista na mão do homem.

- Ahhh, não, Rodrigo! Ahh não!! Olha aquilo lá... [fazendo 'não' com a cabeça e querendo subir a rua de novo]
- ... [atordoado]
- Isso é demais, sabia?? Não acredito!!!! Não acredito nisso!!!

Aline fica muito irritada. Tem vontade de socar aqueles dois. E fica olhando, muda, para Rodrigo.
- Não me olha assim, Line. Eu não sabia, eu---
- Você nunca sabe, né?? Você nunca tem nada a ver com isso, né?? Nunca!!! Eu não quero isso!!! Eu ODEIO isso!!!! E é *por causa disso* que... [já chorando de ódio]
- Line... espera. Não vai deixar isso estragar, por favor.
- Então você vai lá e manda... manda, ah sei lá! Nega tudo!!! Eu vou negar tudo!!!
- Não, eu não vou negar nada. Eu vou deixar pra lá e levar a minha vida COM VOCÊ.
- [sarcástica] Ooohhh, que lindo isso Rodrigo, que lindo!!! Pena que não me comove!!! E nem me convence!!!
- Aline, quê que tem?? Não chora. Provavelmente eles me seguiram e---
- PÁRA!!!! PÁRA! Ai que ódioooo!!
- Parei, tá, desculpe.
- Você conhece eles??
- Eu? Eu, é, não, quer dizer, eles--
- VOCÊ CONHECE ELES??
- Eles acompanham o [voz sumindo] ti... você sabe.
- ARGH!!!!
- Mas eu não sabia que--
- VOCÊ NÃO SABIA!?!
- Juro pra você que eu não fiz isso. Eu não falei nada. NADA, eu juro. Line, escuta. Ignora. A gente passa ali e eu falo com eles.
- Você não vai falar nada comigo perto!! Eu não vou mais!!!
- Line... [cabisbaixo]
- Rodrigo... você viu, você viu... [apontando para o outro lado da rua, inconsolável, e ainda soluçando]

Aline está com o rosto molhado de tanto choro. Quanto mais esfregava com as mãos, mais vermelha ficava. Rodrigo mexe em seus cabelos e a beija seguidamente.
- Line, eu te amo.
Te amo MUITO.
Te amo demais.
Não vou te largar.
Não vou te perder.
Se você quiser ir lá,
a gente vai.
Se você não quiser,
a gente vai só no banco.
Eu vou ficar com você.
Eu vou pra onde você quiser hoje.
O que você quer fazer?
Eu te adoro.
Não fica assim.
Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo.

O sinal (ou "farol", como ele diz) deve ter ficado vermelho umas 5 vezes até se soltarem do abraço, com Aline já sem chorar, mas ainda esfregando os olhos inchados. Que drama! Que horror! Aline odiaaaava essas coisas. Quando se recompõe, solta um ácido "oohh, os queridinhos ainda estão ali? Nunca viram uma reconciliação??" Rodrigo ri:
- Igual à nossa? Duvido.
- Humpft! Vamos, eu quero ir no banco.
- Tá. E eles?
- Não vou abrir a minha boca. Você?
- Hummm [faz mistério]
- Ahh, e depois eu... eu quero ir pro shopping. Sorry.
- Sozinha?? [sério]

Aline sorri, mexe nas bochechas dele e diz:
- Não...

Os dois, abraçados, atravessam a rua.
Enquanto ela entra no banco, Rodrigo se aproxima dos repórteres, que estão nervosíssimos:
- Oi Rodrigo!! Oi Rodrigo!!
- Oi...olha só... que covardia hein? "Muuuito" obrigado. [irônico, tapinha nas costas deles]

Aline sai do banco sorrindo. Vê Rodrigo feliz, fala "vamos?" e entram num táxi.
Mas não se deixa enganar: já sabe que, daqui por diante, não pode mais sair de casa sem lenço.