Na Noite (1)
O segundo andar é praticamente uma sacada interna, com vista total para a social que "fervia" no térreo. Como a música da pista lá em cima ainda não estava tão convidativa, e as duas amigas já tinham ido lá embaixo "falar oi", não acompanharam Pedro e permaneciam aguardando o início do show do lugar onde mais se via as coisas - e onde menos se era visto.
Vivi gosta de Pedro. Aliás, num raio de 10 metros, Pedro, Aline, Felipe e Fabi são os únicos de quem ela realmente gosta. Tudo ali dentro parece muito plastificado, muito artificial. A empolgação daquelas caras conhecidas todas se saudando e se cumprimentando lhe traz um sorrisinho de escárnio no rosto. "Quantos aqui estão sendo sinceros?", se põe a pensar. Quantas vezes ela já não passou horas filosofando com Aline sobre este fenômeno das "galerinhas felizes e amáveis"... Aline concorda com Vivi, por isso nunca foi de se misturar com o povo "amigo do Pedro" ou que "conhece o Pedro" (ou seja, 80% das pessoas à espera do show). Sempre quis distância, nunca deu qualquer tipo de intimidade pra ninguém - apesar de umas poucas almas terem tentado inutilmente.
As duas se assemelham tanto que olhavam para o mesmo lugar sem falarem uma palavra. Andrezinho era o centro das atenções. Tanto delas lá em cima, quanto de um animado grupo ao redor dele.
Vivi nota o suspiro meio desapontado de Aline ao vê-lo e murmura, quase ao mesmo tempo que a amiga:
- Éééé... que coisa.
E as coisas se seguem a olhos vistos...
Risos e risos,
tapinhas nas costas,
vai-e-vem de pessoas,
aí chega Pedro,
e vem Alexandre,
daí vem Felipe,
e vai Alexandre,
que volta com drinks,
e vem outros dois,
cochichos gerais,
a roda aumentando,
chegam mulheres,
acendem cigarros,
passam aos outros,
atitudes blasés,
as bolsas iguais!,
quem é quem, isso faz diferença?,
são todas iguais,
iguais menos uma,
então vai Andrezinho,
pr'um canto com ela,
ela, aquela,
aquela,
sabia!, quem é que não sabe?,
disfarça disfarça,
a gente, aqui em cima,
fingindo ser nada,
sorrisos, sorrisos,
de volta à roda,
que gira, e gira,
chegando mais gente,
saindo Felipe,
Pedro num lado,
Thaís logo ali,
Andrezinho também,
mas ela, ahh, ela,
aquela, aquela,
ali, bem ali,
e a outra,
a Márcia,
a Márcia, meudeus!,
olha ali, bem a Márcia,
mas ela,
só ela, ela ali,
tragando o cigarro,
olhando de lado,
Marcelle, é o nome?,
é ela?, é ela!,
ela, aquela,
aquela do canto,
eu vi, Andrezinho,
nem tenta, aiai,
euforia, euforia,
will this never end?,
é tarde, e ela,
aquela,
já sai, de fininho,
pra longe, bem longe,
mas nem tanto,
ela, aquela,
ali, bem de lado,
e olha, como olha!,
só pro Andrezinho,
que nem vê,
que nem nota,
que nada, ele finge!,
só pode, aposto,
é isso, é ela,
ela, aquela,
aquela,
que mata,
mata a Line,
que se rói,
que se morde,
que não se agüenta,
e olha bem para ela,
ela, aquela,
e a observa, observa,
e se vê quase nela.

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