Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

quinta-feira, dezembro 12, 2002

Sem anel ("Ring-less")

Os dois haviam brigado feio meses atrás. Ele não se conforma, ela nem gosta de lembrar o motivo. Ahh, mas ele lembra... todo santo dia, desde então, a primeira coisa que vem à sua mente quando acorda é a piadinha causadora de todo o stress. "Tinha necessidade? Tinha REALMENTE necessidade, Rodrigo??" – é... como sempre, Aline está certa.

Quando o pau quebrou, não teve jeito. Aline teve que deixar a quietude engole-sapo típica de lado e iniciar um discurso:

— Só volto a falar contigo normalmente quando você tiver feito uma reflexão profunda na sua vida e chegado à conclusão de que vale a pena respeitar alguém que não faz outra coisa a não ser suportar os piores perrengues POR SUA CAUSA! Já que você não quer terminar esse namoro AGORA, deixo nas tuas mãos: VOCÊ vai ser o responsável pela saúde dele. Manter esse relacionamento respirando com máquinas é muito fácil, quer ver?? [abre a porta do quarto] Tá vendo aquela mala ali? É porque você tá indo pra São Paulo descansar, não é mesmo?? Férias merecidas do "trabalho", troca de clube... whatever. Por isso você veio aqui me buscar, não é isso?? Pois aquela mala ali vai ser DESFEITA, eu não vou mais. Tô achando mesmo que você precisa passar uns tempos fora – e sozinho. Sozinho, ou na companhia de quem você bem desejar! [irônica] I'm not into that! Tô fora, Rodrigo, me tira do circuito... vai você, fica lá com a sua família, numa boa, mande lembranças a todos e avise que talvez eu volte no final do ano, quem sabe... se o meu namorado lindo --- [os olhos enchem de lágrimas] --- se o meu namorado lindo [ela vê que ele está sentado em sua cama com os olhos vermelhos e tristíssimos, derrotados] ainda for o meu namorado lindo... [limpando as várias lágrimas que escorrem pelo rosto dele, sorrindo desapontada.] Rodrigo, por que você faz isso comigo?? Aliás, eu chego a duvidar de quem está sofrendo mais, viu... se eu ou você. Na verdade eu não tô tão magoada – estou furiosa e, a partir deste momento, oficialmente dispensada de eventuais obrigações para com o namoro. Desculpe, Rodrigo, mas agora é com você. Você viaja e decide.
— Eu te amo, eu te amo, eu te amo!!! Faço tudo na vida por você, não me manda embora, Aline. Por favor. Vem comigo, eu te amo MUITO. Eu... [baixa os olhos] não faz isso, Aline.
— Não estou fazendo nada. Eu não vou fazer nada. É com você agora.
— Você está terminando comigo? Pedindo um tempo, é isso?
— Não. Essa coisa de tempo não existe. Ou é ou não é!
— Então....? [sem conseguir parar o choro compulsivo. Aquela sensação de derrota tomando o corpo, as mãos atadas, a consciência de que a culpa foi toda sua]
— Não estou terminando nada. Eu não vou terminar este namoro a não ser que você me force a isso, porque eu sou louca por você. [funga] Mas machuca. Machuca demaaaais ser sua namorada, pô.... e você ainda quer------ pô, Rodrigo... [esfrega a mão no rosto, que está quente e vermelho de tanto drama]
— Eu achei que você ia ficar feliz, eu---
— Ha! Hum! [funga, engasga, aquelas coisas todas de quem chora e ri ao mesmo tempo]
— Eu... eu preciso mesmo ficar esse tempo todo lá sem você? Não vai me visitar nem um fim de semanazinho? Vamos deixar assim, desse jeito?
— Não. Mas eu também não vou até lá daqui a duas semanas pra passarmos 3 dias na maior lua-de-mel e voltar. VOCÊ vai ter que pensar nessa sua atitude, nesse seu comportamento [frisa a palavra com as sobrancelhas], porque eu não vou carregar esse namoro nas costas com você bancando o coitadinho – com ou sem anel!! Não adianta ficarmos bem entre quatro paredes e quando você vai lá pros seus amiguinhos idiotas, volta cheio de merda na cabeça! E também NÃO QUERO que você fique com essas merdas na cabeça mas NÃO DEMONSTRE! Ahhh, isso é o pior! Ficar escondendo!! Por isso eu quero que você PARE e PENSE SERIAMENTE na situação. Se você concorda com eles, se você discorda, o que você – atenção; *você sozinho* – acha que deve fazer... não pense neles, não pense nem em mim! Não pense "Ahh, o que a Aline gostaria que eu fizesse?". Pense "Ahh, o que eu gostaria de fazer com a Aline?" [sorri. Rodrigo a puxa para o seu colo e entre os seus braços] Não aja como eu gostaria de que você agisse, lembra aquele dia no clube?[vários beijos] Mas também não meça seus passos pelo comportamento geral daqueles merdas que são os seus futuros "coleguinhas" de trabalho.
[fazendo que 'sim' com a cabeça] Eu te amo, eu te amo. EU *smack* TE *smack* AMO. Pra sempre. [abraço] Vou ficar te ligando, tudo bem?
— Hum-hum. Liga sim.





Rodrigo já não vê a namorada há 3 meses – no início, Aline fazia questão de ser um primor de gelo via telefone. A situação veio melhorando apenas ao longo destas duas últimas semanas, e hoje a ligação veio dela! Rodrigo nem acreditou quando foi acordado pela irmã:
— Ôu! É a Aline no telefone...

Ela estava na rodoviária de São Paulo – louca! Por que não avisou? Ele teria mandado uma passagem de avião! Conversaram rapidamente, Aline foi sucinta:

— Marquei com o Beto e a gente vai lá na Galeria, quero comprar uns CDs. Depois eu estava pensando em pegar o metrô e passar no Shopping Paulista até a hora que você puder me encontrar.
— Posso te encontrar no shopping mesmo?
— Pode, ué.
— Então você me encontra ali no estacionam--- não. [reflete melhor] Não.... você vai descer em qual estação?
— Consolação. Gosto de ir pela Paulista.
— Você se incomoda de me encontrar na saída do metrô?
— Hã? Na esquina com alguma rua, você quer dizer?
— Não. Não vou de carro.
— Mas você...?? Sem carro? [duvidando]
— É, dá licença? Quero acompanhar minha namorada num dos passeios favoritos dela – a pé.
— A gente nunca anda a pé...! [surpresa]
— Mas eu sei que é assim que você anda quando está sozinha ou com outras pessoas. Vou deixar o carro descansando um pouquinho hoje. Tô morrendo de saudades de você.
— Então eu te ligo quando estiver saindo da Galeria.
— Tá.

Será mesmo que o seu namorado teria parado pra pensar *de verdade*? Algo naquela conversa de "te-encontro-no-metrô-a-pé" lhe dizia que sim. E ela, como sempre, estava certa.



Quando se encontraram, horas depois, foi quase um sonho. Aline parecia estar encontrando um namorado seu qualquer, assim tipo o próprio Beto, o Caio...
Rodrigo ali encostado na roleta (ou na "catraca", como ele fala), esperando por ela, era uma visão linda, linda... Ahh, ele é tããão bonitinho! Um perfeito administrador de empresas formado na FAAP que trabalha no BankBoston! (Aline suspira enquanto seus olhos encontram os dele)

E Aline ficou feliz quando ele disse:
— Não me deixe. Não me deixe nunca virar um merda. Perdoe as minhas besteiras, perdoe as babaquices todas. Obrigado, Aline. Você me faz uma pessoa normal.

Era disso que Rodrigo precisava. Um choque com a realidade. A fama é uma merda por causa disso. Se bobear, vai pra cima de um pedestal achando que é diferente do resto do mundo. Não é; e Aline tinha que fazê-lo enxergar isso. Ela é uma pessoa que vive na mais pura normalidade e não abre mão disso por nada – nem pelo namorado.

— Você É uma pessoa normal. E é com esse Rodrigo-normal que eu posso querer um dia passar o resto da minha vida. . . . .
— Então você aceita.... [radiante]... no final das contas?
— Psssst! Ask me again some other time.

E aí eles fizeram as pazes.
Rodrigo adia seu sonho e Aline, o seu pesadelo.