Resposta
A vida é irônica... e Aline põe-se a rir.
Nina, uma das amigas-de-colégio que mais admirava, sempre foi tida como a "puta" da sala.
(Isso tudo é fama, ressalte-se. E só fama. Porque na prática mesmo, as coisas eram outras... A "puta" da sala namorou sério por três anos durante a escola.)
Nina, de todas as garotas da sala, foi a primeira a casar.
Fato este que, aliás, vem matando de inveja meia dúzia de donzelinhas "cheerleaders", tidas como as "gostosas", as mais impossíveis, as 'modelos de comportamento', yadda yadda.
("Gostosas" e desejadas que ninguém nunca viu serem paqueradas pelos "gostosões" e "bonitões" da outra turma. Aliás, ninguém nunca viu esses "gostosões" chegando em alguém. Mas isso é outra história...)
Claro que essa mulherada demonstra felicidade por e-mail, mas Aline não compra essa. Talvez por ter sido a "CDF que ninguém nota" no fundo da sala (a Tríplice Aliança nunca sentava na frente), passando quase despercebida ao longo dos anos, Aline capta esses sentimentos "despercebidos", "disfarçadinhos". Isabela (a "Bela"), Linda (bem..., a "Linda") e Letícia (a que tinha um apelido horroroso por causa do sobrenome)??? O trio-maravilha SOLTEIRO enquanto aquela Nina galinha tem um anel no dedo??? Não poooode!!! Aline consegue ouvir perfeitamente o ranger dos lindos dentes das três mocinhas elegantes enquanto sorriem e enchem os e-mails com alegres pontos de exclamação...
Elas podem negar de saltinhos juntos que não sentem inveja, mas não convencem ninguém com essa. Pessoas bem resolvidas com isso na vida não disputam notoriedade, não falam mal de ninguém pelas costas, não ficam 'amiguinhas' para saber dos podres e inventar má-fama por pura maldade. E elas sempre foram assim.
Quem aí acredita que a pessoa "só é assim no colégio"?? Caráter marca cada um desde o início, e é esse tipo de gente que se vai encontrar mais adiante no trabalho, na faculdade, etc. As questões e rivalidades só serão mais "adultas", mas no fundo é a mesma coisa. A atitude permanece. Nasceu com isso, morrerá com isso.
E Nina pode não demonstrar, mas sabe disso. Tanto que não chamou ninguém para madrinha. Nem sequer avisou do casamento, que foi uma cerimônia simples, no civil.
Nina anunciou que estava casada para todo mundo, numa lista de discussão. Recebeu entusiasmados e-mails de resposta, que todos os demais participantes da lista puderam ler. Aline não se manifestou, mandou um e-mail para a *Nina-Nina*, particular, e demonstrou uma felicidade contida, porém genuína. E Nina não respondeu nada.
Talvez a frieza de Aline, se comparado com a das garotas (e suas seguidoras), tenha assustado Nina. Talvez a invasão de caixa postal tenha sido um pouco agressiva. Aline, de qualquer forma, não pensou muito no assunto. Mas Nina não esquece o gesto – que a fez ponderar tudo, de repente.
Que intimidade aquela turma tinha, na altura do campeonato, para falar assim com ela??
Que tanto entusiasmo foi aquele? Por acaso alguém ali ajudou o seu namoro, que virou noivado, e que agora é um belo casamento? Quem esteve com ela nessa época? Era com Bela, Linda e Lemôncio (eis o apelido horroroso)que Nina passava noites em claro no telefone? Foi com elas que Nina dividiu as drásticas mudanças em sua vida (de cidade, de carreira, de amor)?
Não, não foi. Não foi com Aline, também. Mas foi por causa do mail dela que Nina puxou na memória tudo o que sempre fingiu que não via na época do colégio:
do rótulo de 'vadia' que sempre teve;
daquela história do namorado da Lemôncio;
da fofoquinha e dos xingamentos pelas costas;
dos esqueminhas de esconder as festas dela para que ela não fosse e 'passasse o rodo nos homens';
das vezes em que era sondada para descobrir a festa daquele 'gatchinho que ela provavelmente já beijou'; daquele dia estranho na porta do banheiro masculino perto da fila do bebedor, onde Linda parecia estar avançando em Fabrício (o namorado de 3 anos da época);
da exagerada cordialidade ("estapeamento", segundo Aline) delas quando descobriram que ela, Aline, Amanda, Flávia e Fernanda tinham sido convidadas pra festa na casa do Duda, e elas não.
Lembrou de tudo isso, inclusive de uma conversa boba entre ela, Amanda e Aline ("as santinhas!"), durante a chatíssima aula de Geografia II. Nina escrevera o alfabeto na mesa e riscava sozinha as letras iniciais dos "nomes" que já pegou. Incrivelmente, só havia sobrado o Q, o U, o X e o Z. Amanda lamentava a repetição das suas letras com caras (Rafa, Roberto, Ricardo, Rodolfo!!), sem se importar nem um pouco com o suposto "exagero" de Nina. Aline, então, que achava tudo o máximo, murmurou:
— Só não espalha pr'aquele outro lado [da sala, da turma] que elas definham de inveja!
Nina, assim como anos atrás na sala de aula, riu alto da frase.
Inveja... como o trio maravilha poderia sentir isso dela???
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Nina não sabe muito bem por quê, mas resolveu deletar a mensagem de agradecimento que enviaria para todos.

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