Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

quarta-feira, maio 21, 2003

Monólogo (1)

"Sabe, um dia aconteceu uma coisa incrível comigo, que eu nunca poderia imaginar!! Marcou a minha vida de tal forma... que, bem, minha visão de mundo é outra desde então!" Blablabla... [insira aqui seu discurso clichê sobre um momento importante qualquer]

Acho que todos deveriam ter um ponto zero assim na vida, aquele que te faz questionar tudo, que aumenta sua paranóia, etc. Um acontecimento que, de tão significante, você acaba se conformando: "era o destino".

Aí eu me pergunto: esse negócio de destino é pra valer mesmo? Se fosse, pra quê existiria a culpa? Pra que a necessidade de se desculpar com alguém, se por causa do 'destino' ia acontecer de qualquer maneira?

"Ahh, se eu tivesse feito x não teria acontecido y..." De fato, nunca saberemos. E mesmo assim, entra século, sai século, todo mundo se sente culpado alguma vez na vida.

Por outro lado, seria uma saída muito fácil chutar a responsabilidade para o alto "porque o destino é o destino e não há nada que se possa fazer" – "It is your destiny, Luke".

Fatos Jedis à parte, por muitos e muitos anos eu lidei com a culpa. Minha mãe deve ser a pessoa mais culpada pelos males do mundo que eu já vi na vida, e eu não tive como fugir dessa concepção cristã das coisas lá em casa.

Então você dobra a sua prudência, a sua responsabilidade, sua moral, leva uma vida correta, justa, etc., tenta fazer tudo certo, para você e para os outros, para não ser culpado por nada e não acabar fazendo merda (ou causando merda).

Mas sempre – SEMPRE, sem exceção – as merdas acontecem. Às vezes você se culpa, às vezes você culpa, bem, o culpado. Há sempre um culpado, um responsável, um ser com poder supremo sobre os acontecimentos – ruins, claro. As coisas boas quase sempre passam despercebidas. E, de qualquer forma, nunca alguém "tem culpa" sobre elas – usa-se o "graças a x...".

Mas por que estou falando essas asneiras todas?? Bom, porque anos atrás eu conheci uma pessoa maravilhosa, um amigo queridíssimo, que me ensinou muito, muito, sobre culpa e sobre como lidar com ela.

Ele simplesmente não acredita nisso. É impossível fazê-lo sentir culpa. Ele age do jeito que ele age, e pronto.

Isso denotaria mau-caráter? Filhadaputice? Talvez... mas eu prefiro vê-lo como o cara mais autêntico que eu já conheci na vida. Ele é o que é. Deal with it! Arque com as conseqüências de conhecê-lo.

Não que ele seja um arrogante orgulhoso, ou aquele tipo que sente uma dificuldade tremenda em pedir desculpas a alguém. Ele simplesmente não crê que deve desculpas a qualquer pessoa por causa de algo que ele tenha feito. É uma atitude quase ideológica.

Consigo imaginá-lo perfeitamente opinando sobre os casos de assédio sexual: 'culpa da mulher, que é gostosa? Dá um tempo!!'; 'culpa do cara, que usa seu suposto poder para cerceá-la e constrangê-la? Qualé!!'

Claro que este meu amigo não deseja acabar com o Poder Judiciário, mas no mínimo ele põe por terra muitas das hipocrisias cotidianas existentes por aí. Desde uma briga marido-e-mulher até um entrevero de escritório. Muitas coisas são capazes de magoar alguém; mas é infinitamente pior quando se procura por (ou se acha) um culpado.

Fico admirada com seu jeito horrivelmente sincero de lidar com as coisas – e com as pessoas em especial. Nem todo mundo está preparado, eu mesma já fui uma das várias criaturas desprevinidas a cruzar seu caminho.

Meu amigo não se culpa. Nunca se martirizou na vida por qualquer coisa que tenha feito "depois dos 6 anos de idade, quando descobri que podia questionar o que minha mãe falava". Ele faz, assume o que faz e encara os envolvidos normalmente. Pode ser a maior merda do mundo, não vai fazer diferença mesmo no dia seguinte. O que não pode é ele deixar de fazer o que quer "só para não se sentir culpado depois se isso magoar alguém". Cara-de-pau? Egoísmo? Talvez... mas eu prefiro vê-lo como uma pessoa brilhante. Difícil, mas brilhante. Um culhão raro no meio de uma multidão de zumbis politicamente corretos.

Quando ele aprontou comigo, não respingou o mínimo suor de culpa da testa dele. Sua voz no telefone parecia um canivete afiado passeando pelo meu rosto. Em compensação, comecei a me martirizar por meses – afinal, tem que haver um culpado, e poderia muito bem ser eu mesma. Mesmo claramente sendo a vítima, um lado meu se chicoteava de culpa, já que eu não a achava nele. Eu sumi. Isso o enfureceu, lembro como se fosse ontem. Achei que evitaria as merdas na minha vida afastando-o de mim. Pra variar, estava errada. Merdas aconteceram com ou sem ele por perto.

E quando o amor da minha vida me largou por causa de uma porra de um complexo de inferioridade que o fazia se sentir a pior das criaturas ao meu lado ("eu não te mereço, sou muito feio, você não me ama"), esse meu amigo me chamou pr'um bate-papo. Acabei topando, e escutei as maiores crueldades da sua boca. Tomei esporro, ouvi um exaltado "BEM FEITO, TOLD YA!", e testemunhas o confundiriam com um irmão mais velho muito irado por causa de alguma besteira que eu fiz. Muito do que ele falou poderia ter me magoado, mas estranhamente isso não aconteceu. Tampouco concordei com certos pontos do seu discurso. Por algum mistério desses da vida, me senti muito bem. E foi naquele exato momento que me tornei ainda mais fascinada por ele do que eu já era.

Nada do que tinha acontecido entre nós fazia diferença naquela hora. Ele *vai* falar o que ele achar que eu devo ouvir, dane-se o resto! Se ele me magoou aprontando anos atrás, o mesmo aconteceu com ele quando eu sumi. E, olha que fantástico!, ele nunca me culpou, nunca alimentou raivinha de mim. Ou seja: nunca haveria entrave entre nós dois, nunca – dependendo dele, pelo menos. Aí então eu vi a perda de tempo que seria tentar tirar alguém tão especial assim (e tão assustadoramente parecido comigo em inúmeros aspectos) da minha vida!

Aquela culpa espremida dentro de mim há anos por algo que eu não tive controle algum sumiu como que por encanto; me sinto livre e totalmente desimpedida de 'travações' por causa disso. Sou e serei 100% agradecida a ele, por tudo, e retribuo sempre que posso (e assim que eu aprender a domar meu medo – que não tem nada a ver com a culpa que eu sentia –, ninguém me segura!). Acho que, after all, ele é que está certo de viver assim.

Claro que ainda não consegui chegar ao ápice, desencanar de todo e qualquer sentimento de culpa, como ele. Apesar da minha notória frieza ao lidar com certas coisas, ainda tenho minhas cautelas. Acho impossível sair surtanto por aí sem antes pesá-las na balança da consciência.

Mas que meus critérios mudaram, ahh isso mudaram.