Música (2)
A vizinhança de Aline é estranha. Sempre surgem melodias tocando do nada, como que levadas pelo vento até sua janela por algum motivo especial. É sempre muito difícil saber de onde exatamente elas vêm; ou como e porquê justamente aquela música está ressoando naquele momento.
Quando acordou hoje, estava tocando “It’s Raining Men”, das Weather Girls. Irônico, no mínimo. Aline esboçou um pequeno sorriso para si mesma, enquanto procurava com os olhos da onde vinha tal música. Seria uma festa? Um churrasco? Ou apenas uma pessoa solitária como ela que, por nenhuma razão específica, liga o som às alturas? Recostada na porta aberta de seu armário, ela sentia o forte odor de carne que vinha do play do seu prédio. ”Incrível!”, pensa. Apesar de morar em um andar alto, parece que está a poucos metros a churrasqueira.
Debruça no parapeito da janela e constata que, de fato, a música em questão parecia servir de trilha sonora para a comilança. O que é especialmente inusitado, já que em tais eventos reinam coisas como poperô de rádio, Nirvana ou Men At Work. Então Aline fica ali, a ouvir o refrão deste “clássico” da dance music e a pensar no vazio que tomou conta da sua vida há tempos.
Anda chovendo homem para Aline? Bom, ela não pode reclamar... but so what?!
Possui um namorado que a ama muitíssimo, pelo qual ela também se sente bastante apaixonada.
Possui histórias paralelas, algumas no fim, outras no começo.
Possui ex-casos enrolados cujo vai-e-vem parece ser interminável (e inconstante).
Possui admiradores casuais, e também uma lista considerável de foras dados semanalmente na boate.
Possui total controle da situação, de forma que nada interfira na sua vida. Nada.
Nada afeta sua vida.
Engraçado, mas... ela não deveria estar satisfeita com o que tem? E por que então sorri triste para o nada enquanto ”It’s Raining Men” invade seu quarto?
Ela não gosta de ter todos esses homens? Claro que gosta.
Então é arrependimento e consciência pesada por vez ou outra dar uns beijos na boca fora do namoro? Don’t think so...
Ela se arrepende do que faz? Ela vê sentido no que faz? Ela sente o que faz?
Aline não se importa, não sabe o que quer, não tem perspectivas. Ou melhor, prefere não tê-las. Isso não a preocupa, nem a tira do sério, nem a faz empurrar sua vida com a barriga. Ela só pensa diferente.
A música acaba, Aline fica matutando como que uma disco music trash dos anos 80 que é hino gay pôde ter iniciado seu dia de forma tão inusitada. Espera pela próxima canção, imaginando qual seria o rumo do seu pensamento agora...
Mas ela não veio. Após ”It’s Raining Men” a vizinhança silenciou. Nem mais cheiro de churrasco ela sentia. A brisa também cessou. Aguardou alguns minutos, e nada. Ninguém botava o CD Player para funcionar. Aline começou a duvidar se a música realmente vinha de lá de baixo.
Mas, se não era do churrasco, da onde poderia ter vindo? E por quê?? Uma pessoa quebra o silêncio de todo um quarteirão, inclusive pondo Aline para pensar em pleno domingo preguiçoso, e de repente pára tudo?? Nem repeteco a música mereceu.
Aline cogita se não há alguém ali por perto que sentisse as mesmas coisas que ela, precisando ouvir as mesmas músicas que ela e pensando as mesmas coisas que ela...
De repente ouve uma batida na porta do seu quarto - era Pedro, ainda sonolento:
- Quê que deu nesse povo?! Querendo dançar disco em pleno domingão modorrento... tem gente que se anima à toa, né não??
Aline ri, enquanto observa o amigo ainda esfregando os olhos e dando um gostoso bocejo. É, vai ver a misteriosa pessoa “dona da música” está só querendo se divertir um pouquinho... e ela ali, a se martirizar com filosofias vãs.
No estado em que ela se encontra há tempos, até ”Shiny Happy People” seria capaz de deixá-la melancólica.

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