Crueldades
Na primeira vez que o viu, ficou sem respirar por mais de dois minutos tamanho o susto. Olhos arregalados, boca aberta, aqueles chavões todos. Sabe as expressões corporais típicas e estereotipadas que cansamos de ver em filmes? Aline incorporou tudo isso ao vê-lo.
Ele parecia um velho habituê, amigo de todos ali. E pelo jeito que está sendo cumprimentado faz tempo que não o vêem. Aline entra em transe, mal pisca e nem responde ao que Ana teima em berrar:
- Olha o Fernando! Olha o Fernando!
Porra, foda-se o Fernando. Com todo o respeito que sente pelos dois, ela tem mais o que fazer agora.
Numa boate tão escura, como pode Aline ter enxergado tão bem? (ou será que enxergou mal??)
Não, não pode ser.
This is way too creepy.
Deixou pra lá. Talvez, quem sabe, quando estiver no corredor ela o enxergue com maior nitidez e veja que está delirando, o garoto NÃO PODE ser tão igual assim ao Daniel.
Que nada. Com a luz do corredor ele fica ainda mais idêntico. Brrr.
Ai, que aperto no coração...
Desde então, toda semana depois das 3 da manhã, quando Aline o vê chegar, ela dá um suspiro. Um não, vários. Inúmeros. Sente uma saudade filhadaputa daquele filho-da-puta.
Ana discorda totalmente; acha que não tem nada a ver um com o outro. Mas e daí?!
O que Ana conhece de Daniel é o OPOSTO DO OPOSTO DO OPOSTO da visão de Aline. Natural as duas o verem em pessoas totalmente diferentes. Enquanto a amizade de Daniel com Ana era uma coisa mais, aham, "colorida", com Aline se transformou em algo muito cruel.
E aquele garoto ali, diante delas toda semana, tem um olhar cruel. Uma postura cruel. O sorriso que ele abre ao falar com alguém é muito mais que cruel; dá arrepios em Aline. O jeito, os maneirismos - tudo igualzinho ao Daniel que ela conhece.
Então sempre fica a observá-lo de uma certa distância. Nunca quis falar com ele, apesar de já ter tido a chance. Não arriscaria descobrir mais semelhanças além das que já são evidentes.
Ele dança, bebe, fica com as mulheres... tudo dentro de um comportamento padrão e esperado das pessoas que estão ali. Inclusive, não é difícil imaginar Daniel fazendo exatamente as mesmas coisas nas raves da vida em São Paulo. A mesma pose, o mesmo jeito de segurar um copo, a mesma atitude canastra/canalha diante de uma menina...
"God, I miss him!!!"
Aline vira o drink, lamenta com Ana, não ouve uma música que a agrade, perde o olhar no fecho de sua bolsa. Como gostaria de encontrá-lo novamente... estaria mentindo se dissesse que ficaria satisfeita em vê-lo só uma vez. O que ela queria MESMO era apagar o passado com uma borracha superpoderosa e conseguir de volta para sua vida uma das pessoas mais preciosas que já conheceu. Três anos se passaram desde aquilo, e a possibilidade de ter mais três anos sem ele, e depois outros três, e outros três, e de três em três vê-lo cada vez de mais longe até não sobrar nadinha dele,.... ahh, é triste demais. É cruel demais.
Bom, pelo menos tem esse sósia dele freqüentando semanalmente o mesmo lugar que ela. Como seria dar de cara com o "verdadeiro" Daniel?? Estaria ela preparada?? Só pelo jeito que ela fica ao ver o "falso", percebe-se que não! Mas daria tudo para ter a chance.
Aline não esconde sua aflição. Aquele garoto é a *reencarnação* do amigo do qual precisou se afastar! É também uma bela metáfora: Aline assiste a seus movimentos de longe tal qual lê o blog do Daniel - tem uma visão distanciada das coisas, sabe de tudo o que acontece, sendo esta a única forma de manter algum contato. Não possui mais o amigo por "perto" para uma conversa. Infelizmente.
Há realmente algo de muito cruel no ar quando esse garoto chega.

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