As coisas que Pedro causa (1)
A uma pessoa muito querida (e muito sem-noção do que causa :)
Seus cabelos ainda cheiravam a cigarro - lembrança da noite anterior. O corpo exausto, aquela sensação de cansaço e noite mal-dormida ao acordar. Às vezes parece assustador ter que abrir os olhos e voltar à vidinha normal. Mas aí ela olha para o lado... e vê Pedro ainda adormecido. Abre *o* sorriso e fica a fitá-lo indefinidamente. Por mais que tivesse tido alguns sonhos dourados durante sua curta vida, não imaginaria nunca que alguém como ele invadisse seu cotidiano e a presenteasse com algo indescritível, melhor que qualquer desejo secreto que ela poderia pedir para si.
Então agora ela não quer mais nada. Não precisa de mais nada, não anseia por mais nada, não depende de mais nada para que sua vida seja completa. Lágrimas alegres descem pelos seus belos olhos só de pensar na graça que lhe foi concedida ao poder ser dele. "Menino igual ao Pedro? Ahh, não existe...", suspira. "É um anjinho, nossa, e é só meu; como pode?" Esfrega os olhos, num movimento inconsciente para se certificar de que aquilo tudo não iria desaparecer da sua frente. Ela não poderia perdê-lo nunca, nunca.
Viver sem Pedro - depois de ter se relacionado com ele - é praticamente impossível. Até hoje só se sabe de uma pessoa que conseguiu sobreviver: Paula.
Well, ela tem consciência do fato; sabe que nunca mais conseguirá ser a mesma depois dele. E reza para que não tenha que passar por isso de novo. Nos microssegundos em que pensa sobre a possibilidade de um fim, uma tristeza lhe sobe pelo corpo, algo entala na garganta, a respiração fica difícil, sente um medo horrível.
Então se recosta ao lado do dorminhoco e se diverte com o cabelo picotado de Pedro, carinhosamente. *O* sorriso permanece em seu rosto, estampando a alegria imensa que sente por aquilo estar acontecendo de verdade. Ela está ali com ele de verdade, e Pedro gosta MUITO dela de verdade! Dessa vez ela não vai perdê-lo. Na sua cabeça palavras vão se atropelando, uma atrás da outra - tem tanta coisa para dizer, para contar, para confessar! Mas ele a deixa de pernas bambas, uma única frase que tentar proferir sairá ridícula e ela se sentirá patética. Tem vontade de acordá-lo agora e agradecê-lo por tudo que foi capaz de fazer apenas surgindo na vida dela ao acaso. Quer beijá-lo, beijá-lo, beijá-lo, infinitamente, como que para compensar esse tempo todo longe dele. Ela nunca deveria ter deixado as coisas daquele jeito, mas agora será diferente.
Agora ele está ali ao seu lado, acordando e espreguiçando de um jeito muito fofo. Ele está abrindo os olhos e sorrindo para ela, só para ela. Ele acaricia seu rosto, ela está tão realizada. Como já era de se supôr, não conseguiu falar qualquer coisa; só deu um suspiro que fez Pedro abraçá-la bem forte. Ouve dele um "dormiu bem?" sussurrado que lhe arrepiou a alma.
Ao fixarem o olhar um no outro, ela ouve, de repente:
- Tá acordada?
Ela se assusta. Percebe que está num quarto diferente, numa situação diferente, sendo acordada por ele.
Ele - que nem de longe é o Pedro.
"Back to life...back to reality..."
(Soul II Soul)
(Soul II Soul)

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