Pontuando
De repente o mundo parou. De repente, não; foi bem quando Alexandre abriu a boca. Não é à toa que Vivi o chama de “panacão”. Às vezes ele tem uma capacidade de proferir idiotices... chega a ser espantoso.
E espantada, de fato, está Aline – com o rosto contorcido tentando segurar o sorriso-escárnio que lhe vem de reação imediata. Eis aí um de seus piores pesadelos, desde sempre. Ou pelo menos desde os dezesseis anos. Seu medo era um dia passar por isso. Quando preencheu a ficha de inscrição no vestibular, quando se inscreveu na faculdade, quando optou pelo curso que optou. Tal temor a seguia sem dó, mesmo com o namoro terminado. E agora, vários anos e ironias depois, a bigorna cai em sua cabeça. Nada mais óbvio do que Alexandre ser o responsável (ela sempre comentava com Vivi que, se algum dia isso fosse acontecer, que seria por intermédio dele... não deu outra)
— Arranja uma exclusiva.
Assim mesmo, com um ponto final. Alexandre não pergunta, não pede, não flexiona a interrogação. Só quem o conhece para entender. Eis aí um tipo muito perigoso de persuasão (“Crica que o diga”, bufaria Vivi), pois com o jeito boa-pinta que ele tem fica pateticamente irresistível não ceder a uma frase dessa, que chega arrombando qualquer defesa que você tenha preparado – ela vem emoldurada com aquele sorriso, aquele olhar penetrante e aqueeelas sobrancelhas expressivas.
Alexandre é um rapaz bastante adorável – para quem entender o mecanismo ego-maníaco que o move e, claro, não se importar em conviver com isso. Aline está acostumada, Rodrigo é parecidíssimo. Mas, para seres humanos menos tolerantes e pacientes, o ex/atual/whatever de Crica pura e simplesmente “é um chato que se acha o máximo”.
Para gente “besta” como ele, a arte do convencimento corre nas veias. Essa raça consegue o que quer, ou pelo menos acha que consegue (“Rodrigo que o diga”, pensaria Aline). Só com esse maldito ‘ponto’ no fim das frases interrogativas Alexandre conquistava meio mundo.
Mas Aline está reticente. No máximo, com algumas exclamações acompanhando-a.
— ...!!
— É. Fala com ele.
Mais um ponto final.
Mais um ponto na escala cara-de-pau do amigo.
Mas as reticências de Aline não cedem tão fácil...
— ...!
Ela reluta em responder um “não”. É difícil. Mas, assim como acontece quando Rodrigo fala em casamento, ela também não diz “sim”. Só balbucia os três pontinhos...
— ...
Às vezes, um vocativo...
— Alexandre, eu...
As usual, mente funcionando a mil e boca em câmera lenta. Quase encolhida, Aline murmura:
— E-eu...?
Quem olhasse de longe nunca poderia supor que Aline está morrendo de raiva por dentro. Ela queria avançar em Alexandre e dar-lhe um belo de um tapa na cara. Por acaso ela é alguma imbecil??
— Não me diga que você não pode fazer nada. Ele falou que depende de você.
— De... mim...?
— É.
— Mas eu não...
Aline dá um suspiro cansado. Pra quê tentar argumentar com Alexandre? Alguém nesse mundo a entenderia? Ainda mais ele, o ‘senhor retórica’...
Mas ela sabia que se não demonstrasse uma variação de humor, Alexandre a tomaria como uma Crica da vida e sacaria sua lábia – na qual Aline definitivamente não cairia, mas que iria causar um ‘debate’ de mil horas. Impaciente, resolveu dar jeito nas reticências:
— Ah, sei lá, Alexandre, a vida é dele, não minha!
— Mas ele te escuta.
— E daí?
— Você podia falar com ele. Ele que me falou para te procurar.
“Porque ele sabe que sou irredutível sobre o assunto, bocó”, pensou Aline.
Mas, claro, falou diferente:
— Isso porque ele não quer, então empurra pro meu lado e sai de bom-moço.
— Que isso.
— Verdade. Para tudo ele diz “não posso, minha namorada tem aversão a essas coisas”. Só que, aposto, você deve ter se apresentado como o “Alexandre que namora a Crica, que toca naquela banda e que é amigo da Aline”. Aí não dava para mandar a desculpa da patroa né?! Ou... [estalo] ou então foi exatamente isso!! Ele mandou o mesmo papinho e você argumentou que poderia falar comigo.
Não se sabe se Aline acertou, ou se Alexandre ficou apenas espantado em como o raciocínio meticuloso daquela garota pode ir longe para ajudar na teimosia. O fato é que ele se calou subitamente e, pela primeira vez desde que iniciou a conversa, recostou-se na poltrona.
Aline aproveitou:
— Eu DETESTO o fato dele ser jogador de futebol. Isso não é novidade para você, right? O que talvez você não saiba é que eu DETESTO tudo o que vem a mais no pacote: fama, reportagens, matérias, vida particular nas páginas de revista.
Alexandre fez que ia se manifestar mas ela não deixou:
— [sinalizando com a mão] Péra. Eu sei da situação, eu sei dos boatos, eu sei de quase tudo. Quase tudo. [sublinhando o ‘quase’ com as sobrancelhas] E eu sei também que, se ele topar falar da sua vida pessoal, mostrar seu apê, sua família, etc., eu não tenho NADA a ver com isso. Literalmente falando, não quero passar nem perto. Sem contar ---
— Mas ele falou que agora só faz matéria assim com você.
— Mentira.
— Não, é sério. Antes ele fazia, não era?
[Aline tem um rápido flashback ‘Spock’. Alexandre continua]
— Ele me falou que era caso perdido tentar te convencer. Mas eu achei que, por ser seu amigo, você abriria uma exceção.
E aí, de repente, o mundo volta a girar. Aline, com um brilho cruel nos olhos e um sorriso estranho, logo contra-ataca. Mentalmente, claro.
“E eu tenho cara de exceção para você?? Quem você pensa que é??? Um medíocre profissional que, para se destacar no trabalho que faz precisa ser chapa de todo mundo?? Conhecer e influenciar pessoas?? Talvez seja assim que a ascenção nesta carreira funcione, mas você não está achando que eu vou ajudá-lo, né?!? Que tipo de vida é essa??? Sanguessuga, interesseiro, oportunista, posso chamá-lo do que quiser neste instante e ainda não terei expressado todo o meu asco. Você acha que é especial para alguém quando te abrem uma ‘exceção’?? Você sinceramente acha que ninguém tem idéia de como você se aproxima das pessoas exclusivamente atrás de algo em troca??? Você não entende que é por isso que suas amizades “fortes” acabam em guerrinhas de ego?? Que todas as demais sobreviventes não passam de coleguismos???? Cresça e apareça!!!”
Na hora de botar pra fora, a coisa foi diferente. Ou não:
— Sabe, Alexandre... não acho que abrir mão de toda a minha ética e conduta de vida seja o mesmo que “abrir uma exceçãozinha” para um chapa jornalista. Mas você não liga, não é verdade? Dane-se o que o outro sente; o que importa é se ele vai te ajudar, certo? Você passou esse tempo todo sabendo o quanto eu odeio a situação de namorar quem eu namoro. Mesmo assim, nem pensou duas vezes ao vir aqui na minha casa e, na cara dura, se aproximar com um pedido desses como se fosse a coisa mais normal do mundo – e, em caso de negativa da minha parte, achar que isso é o maior egoísmo do mundo, pois afinal eu deveria ajudar você, pensar em você, tudo você. Eu te admiro. Sério. Para muitas situações, confesso, meu sangue é de barata. Mas o seu é imbatível.
Penalizada, ainda arrematou:
— Eu te adoro, I really do, mas não sou a Crica. Na boa.
Ahh, e então finalmente Aline conseguiu!! Tirou o maldito ponto final das falas de Alexandre, e o deixou assim, assim:
— ....?!?!?

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