Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Groundhog life

À fantástica capacidade de distorção do ser humano
(quando lhe convém, claro).



No início era uma gracinha.

Todo intervalo de aula, toda segunda e quinta-feira, lá vinha ele, todo teatral, pulando do topo das escadas que levavam a um pseudo-pátio onde as mais diferentes “figuras” daquela faculdade se reuniam. Ele vinha na direção das amigas empunhando um violão imaginário e cantarolando a balada mega mela-cueca dos Rolling Stones, bem na parte mais pegajosa: “Anybody seeeeeeen my baaaaaabyyyyyyy?”

Aline ria gostosamente. Vivi, ahn, fingia que ria gostosamente.

— Alexandre, você saaabe que a Crica não faz essa aula com a gente... – diz Aline, sorridente, enquanto se levanta para cumprimentá-lo e abrir espaço para o amigo na pequena roda.

— É, ela fez com você, semestre passado. –, Vivi murmura trincando os dentes e aparentando um incrível ar amistoso. Como ela consegue isso é um mistério, mas que funciona, ahh, funciona. Alexandre parece ter adorado o comentário. O que deixa Vivi ainda mais irada, claro.

— É verdade, Vivi! É verdade... [seus olhos brilham, seu sorriso idem. Ele olha, ou melhor, admira as folhas de uma árvore caquética e mal-tratada responsável pela sombrinha bacana, ou melhor, aconchegante. Tudo é mais poético para um Alexandre apaixonado.]

Vivi lamenta tamanha patetice. Aline ri da cara de Vivi. Alexandre, alheio às duas, suspira, acena para um calouro qualquer que passa num dos corredores, pergunta que aula é aquela, não consegue ouvir a resposta, mas também não se importa - todo o corredor já parou para olhá-lo. De repente, se vira para Aline:

— Você... por acaso não viu a Crica hoje?
— Alexandre, [rindo muito] alô som!! Eu acabei de sair de uma aula que ela NÃO FAZ comigo!
— Eu sei, mas você podia ter visto... [a cena aqui é sempre impagável. Alexandre cata um matinho no chão para ficar rodopiando entre os dedos enquanto se senta na borda do pequeno chafariz cheio de lodo que não funciona, ou melhor, onde o sol reflete suas belíssimas águas profundamente verde-escuras. É de rachar o bico.]
— Como, se essa é a primeira aula do dia?? [voz cantarolada, quase que decorada]
— São 9 horas ainda, credo!! –, Vivi intercede, querendo acabar logo com aquela palhaçada toda.
— É... é verdade... com quem é a próxima aula de vocês?
— Nogueira. –, as duas respondem juntas, mas Vivi acrescenta:
— Achei que você já teria isso decorado agora, depois de ---

Aline, com peninha, olha de banda para Vivi, pressionando-a para baixar o facho. Resignada, continua:

[pigarreando]---depois de ter cursado exatamente a mesma coisa semestre passado, claro.

O sorriso que ela força quase mata Aline. Ainda bem que Alexandre não capta farpas tão facilmente quanto percebe os mais leves elogios.

— Ah, sim. Claro. Mas é que... ah...

Alexandre está perdido em seus pensamentos, ainda rodopiando o matinho para lá e para cá e quase se deitando na borda do chafariz, o que provoca rápidos pensamentos violentos em Vivi.

E então, depois de muita conversa fiada e papinho ameno, ela surge, bocejando, no alto da escada. Ou melhor, reluzindo esplendorosa no alto da colina. (Alexandre apaixonado, Alexandre apaixonado...)

No início era mesmo uma gracinha. Crica descendo toda envergonhadinha do comportamento do namorado: Alexandre correndo para a escada, ajoelhando-se e romanticamente à espera da amada. Meia faculdade parava para assistir aos pombinhos.

Então eles se juntavam à Aline e Vivi até o temido Nogueira chegar.

Isso na quinta. Nas segundas-feiras a vida mansa era geral: o professor quase nunca dava o ar de sua graça – e o casal ficava ali até Crica esgotar assunto (o que não era assim tão difícil), ou até Túlio, o galã, se aproximar. Mas aí já é outra história...

Então chega a quinta-feira de novo. E depois a outra segunda. E a quinta. E a segunta. O ciclo (circo?) não pára. Alexandre salta da escada, Aline ri, Vivi trinca os dentes, ele observa a árvore, cata um matinho estúpido, espera a Crica, acena para calouros, avista a amada, corre em sua direção, ajoelha-se e todos param para assistir.

Só que, claro, com Vivi ficando cada vez mais sem saco. Aline também já não tem mais tanta paciência, mas continua um bocado admirada. Não é de se incomodar tanto com a repetição porque gosta de observar Crica. Toda vez Alexandre parece igual - mas a Crica, não. A cada recepção escandalosa do namorado na escada para o pseudo-pátio ela reage diferente.

Ora com tédio, ora com um sorriso radiante.
Às vezes, de mau-humor, o interpela logo ali na escada, cochichando algo que Vivi daria tudo para escutar.
Em outras vezes ela está tão dispersa que por pouco não o nota. (Como esquecer o clássico dia em que ela de fato NÃO O VÊ??)

Será que Crica está satisfeita? Será que para ela é tudo tão lindo quanto para Vivi é entediante? Aline tinha curiosidade de saber, porque nunca esteve numa posição assim, de rotina, com um namorado. Com relacionamentos sempre à distância não há essa convivência, e muito menos uma rotina. (Ainda bem)

Mas – dizem – parece que você se acostuma. Dizem que é legal ter esse amor ostensivo, público, ensolarado e em eterno replay.

Ah, Aline até achava bonitinho de ver. No início. Mas é estranho que Crica aceite isso assim tão bem agora. Afinal, essa já não é a segunda vez que eles voltam?? E como assim tudo volta *do nada* para o mesmo lóvi inicial?? Não é meio que cismar na tecla errada??

Pois bem, depois de muito muito tempo, eles terminam (de novo). E voltam (de novo).
Nesse meio tempo Crica se revela.
E Alexandre também. Vira um chato, com todo esse espetáculo babaca para as amigas.

Se no início era uma gracinha, no final torna-se um saco acompanhar, responder, conversar sobre qualquer coisa enquanto ela não chega.

Não é possível que Alexandre passe por "altas" crises de macho, resolva terminar e depois queira correr atrás de Crica como um louco incrivelmente pentelho.

Pensa que o circuito termina quando todos se formam?? HA!
O termina-volta continua "firme e forte" vida adulta afora.

E Aline e Vivi ali, só matutando por que diabos nem Crica nem Alexandre não saem dessa.
Alguém deve estar preso em um "Feitiço do Tempo". Só pode ser.