O outro cara
Vivi não entendeu nada, Ana se revoltou. Aline achou a coisa mais bizarra, mas não se opôs.
Rodrigo iria com elas à boate. “A outra pista é eletrônico. Bia recomenda”, disse ele. “Tá bem”, Aline assentiu.
O que ela não sabia era o real motivo da ida: O DJ.
Rodrigo está com a pulga atrás da orelha desde o dia em que o conheceu. Não faz idéia da onde surgiu a sensação, mas cismou que está certo: o DJ está de olho na Aline. Duas ou três ‘visitinhas inocentes’ ao Pedro culminaram naquele CD-R gravado especialmente para sua namorada. Aquilo foi a gota d’água. E um dia depois de Aline aceitar morar com ele.
Ele já havia desistido de convencê-la a casar há tempos e, confessa, resolveu chamá-la para morarem juntos assim que as ‘visitinhas’ começaram. Como se viu, a sorte (timing?) estava do seu lado.
Mas o ciúme também. E o ciúme o consome agora, só que de forma diferente. Ele não está desconfiando dela – mas sim do DJ. Rodrigo nunca se sentiu ameaçado por ninguém no que diz respeito a namoradas. Mas o DJ... o DJ o intimida. Desde o primeiro eye contact.
E se ele tocar uma música pra ela toda semana?
E se ele, de dentro daquela carrapeta, emocionar mais Aline do que qualquer coisa que Rodrigo tentou?
E se ele, mesmo sem palavras, ou até mesmo contato físico, a fizer feliz de uma forma que ele-Rodrigo nunca vai conseguir?
Aline provavelmente acharia tudo “um absurdo”, “maluquice total”. Diria que “uma coisa não tem nada a ver com a outra”, que “todo mundo fica feliz com as músicas que ele toca”. Mas Rodrigo tem a certeza bizarra de que o DJ quer entreter *sua namorada*, e muito além da pista de dança – ele *quer* sua namorada.
Até agora Rodrigo não sentiu nada de esquisito vindo dela: não desistiu de morar com ele, continua encaixotando as coisas normalmente, seu comportamento não mudou. Aline pode até mesmo nem ter percebido a avançadinha do DJ, pois não reagiu ao fato nem deu bola. Rodrigo, portanto, não se preocupa com ela.
Mas a presença do DJ é como um fantasma que o ronda, que o faz se sentir um tantinho inferior (não muito, claro!) – como que ameaçando tomar o seu lugar.
E é isso que Rodrigo não agüenta: a mera possibilidade de existir alguém mais adequado para Aline – alguém que possa compreendê-la melhor, consolá-la melhor nos momentos tristes, dar-lhe um colo melhor, enfim, ter uma “conexão” maior com ela.
Alguém “mais certo” para Aline.
Sem nenhuma explicação lógica, desde aquele primeiro eye contact Rodrigo sente que pode não ser *o cara* da Aline.
Rodrigo não consegue mais se imaginar sem Aline em sua vida, e não vai ser um DJ surgindo do nada agora – logo agora! – que vai botar tudo a perder. Ele não vai permitir isso. Enquanto puder, manterá Aline “distraída”. O perturbardor é que isso não depende só dele-Rodrigo. It’s up to the DJ.

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