O último dia
Parecia um domingo como outro qualquer, mas era o último.
Rodrigo assistindo à todos aqueles zilhões de canais de esporte na sala; Aline trancada no quarto lendo; Pedro e Neto dormindo no outro quarto. No relógio, 10:41 da manhã. À noite Rodrigo vai se mudar para outro país, outro time, outra vida praticamente. E ele não conseguia parar sossegado em nenhuma ESPN, passava voando: futebol europeu, click; hóquei no gelo, click; golfe, click; Fórmula 1, click; vinheta da NBA, click-click-click...
O avião só parte de noite; mas o que fazer até lá, ainda mais num domingo?
Passou os últimos 6 dias grudado em Aline (o que a incomodou consideravelmente, pois ela nunca havia passado tanto tempo seguido junto de uma mesma pessoa antes - “urgh, ISSO é vida!?”, bufava). Antes havia grudado em Bia, sua irmã. Bia, aliás, estava alojada no apartamento dele desde sexta - claro que ela inventou de trazer DJs pra festas cariocas só para tentar dissuadir o irmão “nem que seja na escadinha do avião”. (Só Rodrigo mesmo para estranhar o fato de Bia ter sido contra, e Aline a favor!)
De qualquer forma, lá estava ele, de volta ao canal do futebol europeu. Levantou-se, foi até a cozinha, pegou um copo d'água mas só deu um gole, voltou pro sofá, mudou pra reprise da NBA, não aguentou e desligou a TV. Olhou pro teto, olhou pra varanda, olhou pro relógio: 10:45!
Então caminha até o fim do corredor, em direção ao quarto. Aline estava absorvida em sua tradicional pilha de leituras dominicais, que dessa vez não diminuía por culpa de um livro que não conseguia parar de ler. Virada para o outro lado, nem notou a porta se abrindo lentamente. Rodrigo não quis interromper e ficou parado observando-a, meio desapontado, meio comovido.
É que Aline não derramou uma lágrima sequer por causa de sua mudança (não na frente dele, frise-se), e parece tratar este domingo como mais um domingo em sua vida – que só vai ser diferente porque levará o namorado ao aeroporto e não o verá mais até pelo menos o Natal. Assim mesmo, uma coisa “nada demais”, corriqueira, como ir até as Lojas Americanas e voltar.
Mas o que ele queria? Que ela, só hoje, interrompesse sua rotina? Mas interromper pra quê? Tudo mais que deviam fazer já foi feito nesses 6 dias (e repetido à exaustão no sábado e de manhãzinha!!); então o que mais há pra fazer além de esperar chegar a hora? Ficarem abraçados olhando o nada? Ou os dois curtindo uma fossa e loucamente tristes se agarrando aos últimos minutos que ainda tinham juntos? (cruzes, Aline de-tes-ta esses dramas!) Caramba, foram SEIS LONGUÍSSIMOS DIAS olhando um pra cara do outro!!! “Dá tempo até de enjoar de você!”, riu Aline ao recebê-lo de mala e cuia segunda à noite.
E o que mais fascinou Rodrigo foi justamente a capacidade de Aline de manter sua rotina: foi trabalhar como todos os dias, fez compras com Pedro como toda semana, nerdou na Internet como sempre, enfim...
Não mostrou indiferença à sua mudança, muito pelo contrário; mas também não fez do namorado um rei, ou dos últimos dias um fim-do-mundo.
Um mês antes já haviam passado dias conversando, se entendendo, se resolvendo. Tudo na mais perfeita civilidade – com um certo drama-leonino típico do Rodrigo, claro, que Aline nem liga.
Sendo assim, todas as semanas foram bastante ocupadas justamente para que no último dia, o derradeiro domingo, não houvesse imprevisto algum. Agora só faltava mesmo o avião. Mas esperar... esperar é terrível para Rodrigo, ele não consegue se concentrar, fica inquieto demais, ansioso. Aline, por sua vez, parece que só vai levantar dali pra beber água e voltar correndo!
Então a porta faz um rangido e Aline olha por cima do ombro:
— Nossa, você tá aí desde que horas?? Nem te vi...
Rodrigo olha pro relógio. “10:48”. Sorri para Aline e pergunta:
— Quer um gole?
— Nossa, quero sim! Tô morrendo de sede.
— Então fica com o copo inteiro, pra você não ter que levantar.
— Oh que romântico! [ri] Brigada!
Poucos segundos depois, ela volta a se deitar e a ler. O domingo segue.
Rodrigo fecha a porta, volta para as ESPNs e começa a entender. As coisas são muito simples, o cérebro é que complica. Ele deveria se lamentar por não estar ali semana que vem e levar um copo d'água para Aline no quarto. E só.

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