Too late
Engraçado, Aline não tem um pingo de ciúme dos namorados, mas com alguns amigos é o oposto! Às vezes sente ciúmes de amigos dos amigos, especialmente aqueles que tomam o seu lugar. Não chega a ser uma coisa Neto, mas em certas ocasiões o bicho pega!
Como hoje – tarde da noite, tarde demais.
E sabe como é ciúme... ao contrário do sentimento de posse, não dá aquela raiva louca – ciúme causa uma "revolta interna", uma sensação totalmente esdrúxula crescendo dentro da gente, que faz com que nos perguntemos: “E eu???”
“É ridículo sentir esse ciúme!!”, ela pensa. Mas como expulsá-lo? Como NÃO pensar nisso sem parar?
Histérica, digita freneticamente um e-mail para Ana, entope a amiga de mensagens offline no ICQ, grita grita grita em CAPS LOCK, sente o suor pela testa mesmo com a madrugada fria anunciando o outono-inverno. Não consegue dormir, a cabeça está a mil tentando entender o que diabos Claudete, a piroquete, está fazendo do outro lado da sua vida!!!!
Ela é a ex-namorada descontrolada de Pedro, ponto. Não tem que surgir do nada como AMIGA DO DANIEL!!!!
Da onde eles se conhecem?? Como ficaram “amigos”?? O que diabos houve no mundo, que agora só faz encolher????????
As costas doem, os olhos ardem, o relógio avisa que é tarde, mas o sono não vem.
— Ana, você deve saber alguma coisa sobre isso, vááá...!! Help help help!!!!!! — Aline brada para o monitor enquanto reenvia o e-mail just in case.
E o Pedro que não chega, e o celular da Bia fora da área .... aiaiaiaiai. Maldita festa em plena segunda feira. Maldita vida social da cunhada. Maldito sono que não chega. Maldita tarde da noite!
— Não consigo acreditar, não consigo acreditar, não consigo acreditar.— Aline segue falando sozinha.
Não dá pra acreditar que Claudinha e Daniel sejam sequer meros conhecidos.
Não dá pra acreditar que nem isso ela tenha só para si.
Não dá pra acreditar que seu velho amigo possa saber quem é essa newbie!!!!
“Ele é MEU amigo. MEU. Meu, meu, meu. Meu-meu-meu-meu-meu!”
Aline baixa a cabeça, de repente sente-se enfraquecida. Ela funga, retira os óculos e respira fundo.
“Sou uma idiota.
Ridícula.
Dramática.
E babacona.”
O próprio blog do Daniel aberto no browser, e ela ali, parada, olhando para os dados da Claudete em um dos comentários. Por que ela não comenta algo também?? Ou por que não envia um e-mail??
Suspiros. Mouse agitado. Aline segue fechando as 14 (!) janelas que abriu para ler o maior número de comentários possível no menor espaço de tempo. Pausa para o micro descansar. O gole d’água não desce bem, e nada de sono. E vai ficando tarde.
Sabe o que é pior? O próprio Daniel ali, no seu floating do ICQ, no canto direito do desktop, azulzinho de tão online que está. Em “N/A” há duas horas e meia, é a situação ideal para o envio de uma mensagem: não haveria contato direto, muito menos diálogo!!
Com o cursor piscando na sua frente cresce um desconforto inexplicável. Ela não só não tem mais o pulmão para isso, como perdeu aquela espontaneidade tão bonita que tinha com Daniel.
Já está tarde, muito tarde.
“Tarde demais pra sentir esse ciúme”, pensa.

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