Quatro dias?
— Liga pra ele!
— Não!
— Por que não? Liga pra ele!!! – Vivi continua a pilha.
— Não vou ligar, cara!
— Liga-liga-liga!!! Agora!!!!
— Arre! Não devia ter te contado...
— O quêêêê??? Claro que devia!!!! Senão quem ia te pilhar??
— Uhnf...!
— Cara! Se tú não ficar com ele de novo vou te bater TANTO...
Era “day after”. Aline havia ficado com o DJ um dia antes, mas 2 minutos depois que ele foi embora um torpedo via celular chegava para Vivi:
Vivi quase caiu pra trás. Em pleno carnaval, festa especial da Madonna rolando, 4 e pouco da manhã, ela queria sair correndo atrás da Aline pra saber essa história! Da onde surgiu????? Como assiiiiiim?????
Então no dia seguinte as duas se encontraram num shopping, Vivi não agüentava de curiosidade e cortou as amenidades no 5º segundo de conversa:
— Agora me fala tudo!!!!!
É que as duas sempre acharam esse DJ muito gatinho. Mas ninguém nunca imaginou sequer ter chance com ele, pois seu namoro era daquelas coisas eternas, “sagradas” até. Só que desde o início do ano a garota não era mais vista ao lado dele.
A fofoca comia solta até que um dia ele apareceu na casa da Aline para visitar o Pedro, e depois voltou para devolver um CD, e daí voltou de novo para pegar outra coisa, e voltou mais uma vez para devolver, e mais uma vez e assim foi... até que parecia estar visitando *Aline*, e não Pedro. Levou CD-R gravado especialmente pra ela, conheceu o namorado (!!!), até mesmo adentrou o quarto dela uma vez para conversarem.
Acabaram inevitavelmente trocando mais do que simples ‘ois’ e ‘tchaus’ nesse meio tempo. Mas tudo muito light e civilizado. Rodrigo não se agüentava de tanto cismar com ele, mas Aline sinceramente não via nada ali que justificasse o auê (tanto do namorado quanto do amigo.
Até que ontem...
Ontem Rodrigo não estava, e Pedro tinha viajado com a namorada. Definitivamente quando o interfone tocou e foi anunciado que o “DJ” estava lá embaixo, a visita não era para o Pedro.
— Pois é menina, não tô crendo até agora!!!! Aaaahh!
— Então os dois terminaram mesmo? Eu sabia, tava na cara!!! Muito estranho o sumiço dela...
— E foi ela que deu o pé nele! Sinistro!
— Que isso!
— Pois é, ele acabou me contando tudo...
— Juraaaa?
— Ééé... ele tava num momento de carência...
— Ahã! Sei! Quer me dizer então que foi só um troço, assim, do nada e ao mesmo tempo para curar carência?
— É. Quer dizer... não sei se foi do nada. Quer dizer, *pra mim* foi do nada!
— Hã!
— Mas o Rodrigo, desde o primeiro segundo que o conheceu, encasquetou com ele!
— Não diga!
— É sério, tinha que ver ele me enchendo o saco, Vivi! “O DJ tá de olho em você...” “ele tá gamadão...” – e sem nenhuma razão lógica!!!!!! Juro!!!! Até uns 5 minutos antes eu não sabia que ia rolar!
— FALA SÉRIO!
— É verdade. Mas o Rodrigo não; ele CISMOU.
— Mas o seu namorado também é meio bizarro com essas coisas né...
— Totalmemente. Me assusta.
E então Aline contou tudo desde o início, todo o diálogo, a história inteira da namorada – Vivi só escutando, atônita. E, enquanto contava, sentia um arrepio subindo-lhe a espinha, como se estivesse revivendo tudo aquilo de novo, na pele. Foi intenso demais. Foi bom demais.
— Às vezes me faltava até ar, sabe?
— Ô!!! Imagino! Hehehehehe
— Não pô! Não nesse sentido... quer dizer, também... [risos] mas o que eu quero dizer é que foi... diferente.
— Diferente como?
— Diferente. Especial. Esqueci da existência do Rodrigo. Me senti outra, novinha em folha.
— Hum!
— Entende? Como se eu estivesse dormindo esse tempo todo. Ao lado de alguém que........ ah, sei lá. Não sei. [sacode a cabeça] Bah, é só impressão, vai passar. Ele vai voltar com a namorada, é Carnaval né?
— Que que isso tem a ver?!
— Galinhagem né, Vivi? Bã!
— Nunca vi ninguém sair pra galinhar na casa dos outros sem estar rolando festa...
— Vivi, ele acabou de levar um pé na bunda... o que diabos isso pode ter significado pra ele?? Eu tô aqui na pasmaceira, com meu namoro virando casamento, é diferente o que eu sinto...
— Quem garante que é diferente?
— Pára com a pilha...
— Que pilha, criatura?! Estou só refletindo os fatos: ele saiu pra galinhar NA SUA CASA, com SÓ VOCÊ LÁ? Tá bom! Ele galinhou contigo e te deu o telefone pra vocês combinarem algo hoje? TÁ BOM!!!!
— Aaahh Vivi, não seeeei...
— Liga pra ele!
Aline fica muda. Lembra de como os dois se olharam ontem. De como o primeiro abraço tinha sido uma coisa de outro mundo. De como, até aquele abraço, ela tinha traçado o esquema perfeito na cabeça, a certeza de que ia se aproveitar “canastramente” de um homem carente e depois sentar com Vivi para contar o feito.
Pois é, ela está sentada com Vivi para contar o feito. Mas Aline definitivamente não se sente canastra.
E agora?! Quem disse que isso, pro DJ, não foi mais do que diversão carnavalesca? Será que bateu forte nele como bateu nela? Aline não faz a menor idéia – e está indócil com isso. O que é bizarro, pois a “comprometida” da história é ela – que não deveria estar pensando tanto assim no que rolou. E o namorado?
— Chifre é chifre, pô. Já passou.
— ENTÃO POR QUE ELE TE DEU O CELULAR E PEDIU PRA VOCÊ LIGAR??
— Porque talvez ele queira distração durante o Carnaval.
— ENTÃO, ALINEEEE! LIGA!!!! Aproveite enquanto durar!!!!!
— Bah, é verdade. São só quatro dias, certo? Vou arriscar, me dá meu cel. [Vivi bate palmas de alegria.]
E foi ali mesmo, na mesa da praça de alimentação, que Aline percebeu que discar o número do DJ e marcar algo não era canastrice. Era necessidade.

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