Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Face the Future

Terminar tudo é fogo. Você sempre faz mil planos, ensaia na sua cabeça, pensa em todas as possibilidades de como a outra pessoa vai reagir, dá uma de RH de empresa (“que tal demitirmos em tal dia pra não traumatizar tanto?”) e no fim das contas nada sai como o planejado.

Aliás, chegar à decisão de terminar é muito, muito difícil. Os meses passam e você tenta adiar a “tarefa” (tem gente inclusive que faz de tudo para empurrar o dirty job para o outro), vendo se realmente não vale a pena agüentar “mais um pouquinho”. Mas não adianta: se você não estiver 100% confortável, um dia chega a hora. Há que ser sábio para conseguir enxergar esse dia chegando - pra também não acabar perdendo o bonde e ter que esperar sabe-se lá mais quantos dias, semanas, meses, ANOS, até passar outro!

É fato: quanto mais tempo se tem de relação, mais complicado vai ficando de terminar. Se mora junto, então, pior ainda! A não ser que surja um “outro” na história, ou as brigas estejam mesmo absurdas, é improvável que alguém consiga dispensar uma companhia de anos assim, pff!, como quem dá tchau ao entregador de jornal.

Neste caso o álibi foi perfeito: tinha surgido um outro. Por seis enlouquecedores meses o affair foi seguindo (e intensificando). E ela lá, fazendo cálculos complicados de prós e contras, tentando pesar coisas abstratas como o amor pelo namorado e a paixão pelo amante. Como tomar uma decisão racional se o que está em jogo é puramente emocional?

O que se deve pensar nessas horas? No próprio ego, no relationship status, no amante, no oficial, ou na sua própria felicidade? Oras, mas não está tudo misturado?

No fim do segundo “mês caótico”, ela pegou um bloquinho no trabalho e começou a rascunhar:

O FIM DO MEU NAMORO-CASAMENTO.

O QUE EU QUERO:
1. Ficar só com o amante. (namoro ou não, I don’t care)
2. Me sentir mais feliz do que isso.

CORRO O RISCO DE:
1. Me arrepender.
2. Tomar um pé do outro.


Bom, a questão do arrependimento é crucial: voltar atrás vai ser ridículo. Namoro vai-e-vem é o fim da picada.

Então ela fez um asterisco e escreveu embaixo:

* Pensar 500.000 vezes antes de decidir. Só terminar quando não houver possibilidade de arrependimento.

Sobre tomar um pé, ela raciocina: “bom, para morrer basta estar vivo”.

Então ela fez outro asterisco e escreveu:

** Está pronta para arriscar? Preparada para tombo? Só terminar quando responder ‘sim’ a pelo menos uma dessas perguntas.

Então os meses passam. Ele continua ligando, mandando indiretas, dizendo com todas as letras que pensa nela sem parar, que o que sente é “muito forte”, e lá fica ela que nem retardada, achando tudo lindo.

“O amante não pode influenciar minha decisão. O amante não pode influenciar minha decisão. O amante não pode influenciar minha decisão.” Este é o mantra, mas não está ajudando. Afinal, como não influenciar se a culpa disso tudo foi ele ter surgido?!?

(Também não está ajudando o fato do namorado não criar um conflito sequer durante esse tempo todo.)

Então, no fim do sexto mês, ele liga contando que acabou com a namorada. Que estava solteiro e que não ia desistir de correr atrás do que ele quer. Que respeitaria qualquer decisão que ela tomasse, mas que pra ele já não dava mais.

No dia seguinte, ela se vê no trabalho folheando o bloquinho, lendo e relendo.
Está pronta para arriscar? E o tombo?

Respira fundo, conta até 500.000, murmura “que tombo? Tô nem aí” e resolve pagar pra ver. That’s it. É agora ou nunca.

Aí você pensa: ela está feliz. Aliviada por ter decidido o que fazer. Hmm... not quite. Pede para sair mais cedo do trabalho (o almoço não caiu bem), volta para casa, entra no chuveiro e ali chora compulsivamente. Chora, chora, chora, tira tudo do seu sistema. O choro é alto, nervoso, soluçante, alternado com o que parece ser um grito de desespero. Mas é medo. Pânico completo pelo rumo da vida ser de repente alterado. De um dia pro outro, plim!, o que antes era um futuro previsível (e até bocejante), vira um magnífico ponto-de-interrogação-misturado-com-frio-na-barriga. Chutar tudo assim de repente????? E as lágrimas correndo... o choro aumentando... coragem diminuindo?

Terminar tudo é fogo. Chegar a essa decisão é ainda mais difícil. Mas, na hora H, é a-pa-vo-ran-te. É como se desse um branco.

Mas o pior de tudo foi ele, o namorado, chegando naquele momento e ouvindo o desespero. E ela então, sem poder voltar atrás nem que quisesse, tendo que falar, aos soluços e gerúndios: “Eu vou estar terminando com você”.

Definitivamente, no fim das contas nada sai como o planejado.