Line + Pedro (Dois amigos)

Seriam relatos auto-biográficos? Apenas contos? Memórias? Ou roteiro de um filme? São as aventuras de Pedro e Aline, dois grandes amigos cercados de histórias por todos os lados.

Terça-feira, Janeiro 27, 2004

Surpresas e gentilezas

Contribuição para o desenvolvimento do texto: Cris Gore


Que humilhante... Crica, com mala de viagem daquelas com rodinha e bem compacta, na fila do guichê de vendas de passagens de ônibus para São Paulo. Quase oito da manhã, em raro sábado sem plantão na redação.

Na verdade, o humilhante não é a viagem – e sim, sua condição: agora, ela é “namorada à distância”. Alexandre está num grande jornal de São Paulo. Não é à toa que desde a mudança dele, Crica não olha na cara de Aline. Óbvio! Ela se lembra muito bem de como criticava a “amiga” por agir assim.

“— Ai, namoro à distância!?!? Que coisa esquisita, eu não acredito que isso possa existir! Eu nunca namoraria assim!!”

Pois é, e lá está ela, seis anos depois, QUATRO vai-e-volta com Alexandre depois, pegando a “ponte rodoviária”. Ahh, Aline daria tudo para estar ali vendo a histórica mordida na língua.

Não que Crica estivesse olhando para os lados desesperada com medo de ser vista! Estava é se perguntando como diabos se enfiou numa situação que claramente não é para ela. Quando voltou com Alexandre, não fazia idéia de que ele já tinha passado na seleção para o estágio em São Paulo!!

(Se ela soubesse, provavelmente não teria dispensado tão rápido aquele repórter do RJTV só porque ele ficou 5 dias sem ligar.)

De qualquer forma, Crica não pensava em se esconder. Estava com o rosto encoberto pelos cabelos porque procurava dentro da bolsa uma caneta para preencher os dados do bilhete, quando...

— Ora, ora, veja só quem se esconde de vergonha!!! Fique tranqüila, a Line não está aqui para fotografar a cena PATÉTICA...

Antes fosse a Aline. Antes fosse.

— ... mas pode ter certeza de que eu vou contar tudinho para ela na volta!

É Ana, que está mais do que atacada; está satisfeitíssima, com um prazer mórbido no olhar e um tom de voz adoravelmente cínico e sarcástico. Crica esboça o sorriso mais constrangido.

As ex-amigas não se falavam há muito tempo. Até se cruzavam vez ou outra pela cidade e – mais raramente – em festas em comum. Mas Ana sempre fazia por onde NÃO falar com ela – e a própria Crica também evitava. Não havia o que se dizer depois daquela briga horrorosa entre as duas.

Ana poderia perfeitamente ter passado direto por Crica e ido ao guichê sem sequer notá-la. Mas não, claro que não! Como NÃO zoar? Esta é uma situação formidável: Ana está indo para São Paulo justamente para se encontrar com Alexandre! Os dois vão juntos ao show dos Breeders hoje à noite!!! Está tudo combinado há semanas...

Das duas, uma: ou Crica conseguiu se livrar do plantão de última hora e resolveu fazer uma "surpresinha" para o namorado, ou vai visitar outra pessoa – tipo o Túlio! Qualquer das opções será um prato cheio para Ana, que não perdoa:

— Ele também conseguiu free pass pra você?? [voz sempre naquele tom delicado-ácido da Ana]
— ???
— É, pro show do Breeders hoje...
— S-show?! [voz entalada, quase que não saiu]
— É, menina...! Em que planeta você vive?? Não sabe que Alexandre ralou dois meses atrás desses VIPs??

Ana já sabia que viria uma cara de mega-espanto. Alexandre não ia conversar sobre isso com a Crica, seria como falar para uma porta. Então fez de propósito, e continuou:

— Ahh, ele não te falou...?? [fingindo dó] Vai ver também está planejando uma supresinha pra você....[dando um leve tapinha nas costas de Crica] Uhh, esses casais são tããão românticos...! [já de frente para a mocinha do guichê] Você me vê uma passagem para São Paulo no executivo de 8:15, por favor??
— Vocês estão juntas?

Crica se colou no vidro do guichê, quase histérica. Ana olhou de lado, soltou um risinho e respondeu:

— Não muito, mas eu estou indo me alojar na casa do namorado dela. Só que EU marquei com ele, e ela não!! Não é meigo? Por isso, nada melhor do que uma booooa conversa de 5 horas entre a gente, não?? [sorrisinho]
— N-não, [a mocinha deve ter percebido a tensão entre as duas] é que e-eu ia explicar que não seria possível sentarem juntas porque só restam dois lugares, mas separados: um na janela, segunda fileira, e um no corredor, mais para trás.
— Ah, o corredor está ótimo pra mim.
[virando-se para Crica] A senhora fica com a janela então?
— Não, não, não eu já... eu já... já tenho a passagem aqui, obrigada. Comprei por telefone ontem e retirei o comprovante com a outra funcionária.
— É só para mim, obrigada. Fico com a do corredor, detesto janela.
— Pois não. [processando o bilhete] Poltrona 26.

Crica quase morre. Olha para sua passagem e vê: poltrona 25. Ana percebe o pânico e ri:
— Ahahahahahahahahaha! Não é possível!!!!!! Sua poltrona é a 25???? HAHAHAHAHAHA! Vê?! [virando-se para a assustada mocinha do guichê] É o destino! [para Crica]Me empresta a caneta pr'eu fazer o cheque, colega de viagem??

Crica não se mexeu, Ana puxou a caneta mesmo assim.

— Brigadinha.

Que pesadelo essa viagem não vai ser.... Crica estava no maior desespero, arrependidíssima de ter resolvido fazer esta surpresa (sim, era surpresa!) – ela já até esqueceu do tal show que Ana mencionou (aliás, quem disse que é verdade?!); só pensa nas medonhas, horríveis, tenebrosas, cinco horas de silêncio incômodo que estão por vir. E isso porque ela está tentando ser otimista: cinco horas de diálogo seria pior ainda!

Mas até que a viagem seguiu “tranqüila”. Ana não falou mais do show, mas em compensação sacou seu discman com o CD-demo da banda do Alexandre e ofereceu um fone à Crica, só pra espezinhar. Fingiu saber as canções, se espichou na poltrona só para dificultar (e encurralar!) a vida da ex-amiga, pegou um mate para beber só para ter que tirar-e-pôr do porta-copos localizado na janela. E assim foi por cinco horas.

Crica seguiu muda. Se fosse uma história em quadrinhos, seria possível ver um balãozinho com váááários “GLUP” dentro. Crica passou cinco horas engolindo seco, sem ousar pedir passagem para ir ao banheiro e sem sequer molhar a garganta com alguma das bebidinhas disponíveis no fundo do ônibus.

Cinco horas. Cinco loooongas horas. O cheiro ruim da baía na Linha Vermelha. A periferia. O filme na TV do ônibus. ‘Inteligência Artificial’, A.I., que só fez o tempo passar mais devagar do que deveria. Vaquinhas pastando. A serra das Araras. A pausa de 5 minutos do motorista. Os pedágios da Dutra. A placa para Campinas, para a qual Ana começou a apontar, rindo, sem nenhuma razão aparente. O crac-crac das pessoas consumindo o lanchinho ao meio-dia. O céu com o sol a pino se tornando nublado. As fábricas. Guarulhos. O trânsito ficando pesado na entrada da cidade. As pessoas acordando.

Quisera ela ter pregado o olho. Claro, ela fingiu que dormia para evitar as pérolas da Ana, mas a verdade é que se sentia esgotada, como se tivesse passado 15 horas, e não 5, viajando.

Mas isso foi pouco se comparado ao susto da rodoviária paulista: Alexandre havia preparado sua própria surpresa – só que para Ana. Em vez de encontrá-la, conforme combinado, na estação do Anhangabaú, perto de casa, resolveu que a buscaria direto no Tietê. Não custava nada para ele, afinal.

Aquele corredor de desembarque já viu coisas MUITO estranhas desde que Ana e Aline ali desembarcaram juntas, nos fins do século XX. Mas nada, NADA como aquilo: Ana, surpresa, não esperava por Alexandre. Crica, pasma, não imaginava vê-lo.

E Alexandre, coitado, só queria ser gentil.